Não se esqueça: estamos falando de gente


Quinta-feira. Centro de São Paulo. Dia nublado. Do céu, desce uma garoa fina que acinzenta ainda mais a paisagem. Após ir ao Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca, um incômodo me invade. Uma vontade que, há tempos me acompanha, emerge. Na saída do Memorial, meu amigo vira para mim e diz estar com a garganta seca. “Vamos tomar um suco?“. Aceito. Mas, antes de sentar em alguma padaria, pergunto: “Vamos à Cracolândia?”.

Saímos do Memorial e caminhamos alguns metros. Passamos em frente à Estação Júlio Prestes, com a arquitetura histórica que embeleza o prédio. Na calçada, vejo cavalos acompanhados por Policiais Militares. Entre os policiais, duas pessoas, deitadas na calçada. Uma delas, está totalmente coberta com farrapos, sem que seja possível ver-lhe o rosto.  A outra se encontrava sentada, rabiscando o chão. Estranho a cena. Lado a lado, policiais, cavalos e as suas pessoas se encontram no mesmo espaço, como se um ignorasse a presença do outro. O único a se manifestar é um dos cavalos, que, insistentemente, bate a pata na calçada. Pessoas passam, como se os cavalos já fizessem parte do cenário.

Andamos pela rua Mauá e entramos na Alameda Cleveland. Andamos alguns metros e já reconheço a fachada da rua na esquina, palco de inúmeros “Profissão Repórter”.  Só havia visto a rua Helvétia pessoalmente uma única vez, há duas semanas. Na ocasião, caminhava pelo centro com outro amigo, procurando algum bar para botar o papo em dia. Andávamos pela Alameda Cleveland quando ele me perguntou: “Nossa, o que é essa rua aqui?”. Quando olho, acelero o passo, apreensiva. “Anda e eu já te conto”. Após alguns metros, explico: “Se não me engano, essa é a Cracolândia”.

Ontem, apesar do contexto se repetir, meu intuito é diferente. Não queria passar em frente à rua. Quero atravessar a rua Helvétia. Ao chegar nos arredores da rua, vejo muita gente caminhando no sentido contrário. Desconfiada de que PM’s pudessem estar ali “dispersando” (errata: socando) os usuários de crack, ouço meu amigo dizer: “Esse pessoal todo está indo pegar o trem”. Vejo o relógio. 18h. São Paulo consegue ter horário de pico, mesmo nas férias.

“Você quer ir?”, pergunta meu acompanhante. Confirmo, sem muita confiança. Sinto que a vontade de entrar lá é proporcional ao medo. “Não se esqueça: no fundo, eles são pessoas” é o que ouço. Olho para meu amigo, sem graça, meio envergonhada. Entramos.

Foi rápida a passagem na rua que está ocupando (ou invadindo?) as manchetes do país. Vejo uma base comunitária da PM logo no começo e um pequeno aglomerado de pessoas mais ao fundo. “Devem ser eles”, penso. Ao meu lado direito, vejo os prédios abandonados, exaustivamente fotografados pelos jornais nos últimos dias com legendas “Operação Cracolândia remove toneladas de lixo”. Vejo escadas e espaços vazios que, há quase duas semanas, deviam estar repletos de pessoas, fezes e sucata. Vejo algumas poucas pessoas que não moram na Cracolândia passando por ali.

Ao ver os prédios abandonados, uma sensação ruim passa por mim. Não sei o que é pior: pensar que pessoas moravam ali em condições sub-humanas, misturadas ao lixo, fezes e urina, ou imaginar o fim que muitas levaram após a operação. Presas? Mudaram o consumo de endereço? Apanharam da polícia? Suas famílias sabem onde elas foram parar?

(Foto retirada do site)

Por fim, eu e meu amigo passamos entre os usuários de crack, na esquina com a Alameda Barão de Piracicaba. Concentrados no lado esquerdo da calçada, pessoas conversam e fumam, desde nicotina até crack. Sinto algumas delas agitadas, andando de um lado da rua para o outro. Procuro não olhar fixamente. De repente, um homem passa à nossa frente, acendendo um cachimbo de crack. Anda, como se eu e meu amigo não estivéssemos ali. Vejo alguns rostos marcados com cicatrizes, poucas crianças e uma mulher deitada na calçada, de costas para os transeuntes. Quase todos, com exceção de alguns comerciantes e seus clientes, são negros.

Ainda havia alguns bares e lanchonetes abertos. Os comerciantes, acostumados à dinâmica do crack, atendem clientes e limpam o chão de seus estabelecimentos. Os clientes escutam pagode e bebem cerveja. Se não fosse pela pequena aglomeração dos usuários, a rua Helvétia seria uma rua como qualquer outra.

Ando alguns metros e, já um pouco afastada do “farrapo humano” (expressão, utilizada para designar os integrantes da Cracolândia), paro em frente a um hotel e olho para trás, na tentativa de fixar aquela imagem. Um policial, perto de mim, olhava para a frente, calado.

Os poucos minutos que passei na rua Helvétia, a sensação de que a cena é normal para os que freqüentam aquele espaço foi o que mais me chocou. Lembrando algumas aulas que tive, a idéia de que no Brasil “lixo e luxo” se misturam me pareceu mais verdadeira do que nunca. Ao lado de lugares  (minimamente) cuidados como a sala São Paulo, a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa, estão aquelas pessoas que, pior do que conviver com o lixo, são tratadas como tal. É como se elas não existissem e, quando são notadas, incomodam e precisam ser eliminadas dali a todo custo.

(texto retirado do texto publicado pela PosTV, recomendadíssima a leitura)

Eu e meu amigo viramos a rua e, numa lanchonete de esquina, conversamos sobre as cenas que tínhamos acabado de ver. Sobre a política higienista, que quer mudar o problema de endereço (e não resolvê-lo), afinal, um problema dessa complexidade não se resolve anunciando construção de um prédio para atender dependentes, na região do Bom Retiro.  Falamos sobre o plano Crack , do governo federal, e como a operação na Cracolândia seria um passo do governo estadual para não perder espaço político em ano de eleições. De como toda essa “limpeza” é filha da especulação imobiliária e de, apesar da cracolândia sempre ter existido, a questão está sendo mais noticiada só agora. De uma pergunta muito simples não estão sendo feita: DE ONDE VEM A DROGA CONSUMIDA NA CRACOLÂNDIA? QUEM FINANCIA ISSO? Pegar pequenos traficantes e esconder quem financia toda a jogada é o que se faz na Cracolândia há anos. Quero ver pegar cachorro grande, empresário e políticos que devem lucrar horrores com o tráfico.

Na volta, passamos pela rua Helvétia novamente. Com a garoa um pouco mais forte, lembrei de algumas cenas do Profissão Repórter e tive a impressão de que aquelas pessoas continuariam na rua, tomando chuva. E foi exatamente o que vi.

Passados 40 minutos desde que tínhamos passado pela rua, sinto que o lugar está mais cheio. Quase todos os estabelecimentos já estavam fechados e a base comunitária da Polícia continuava lá. A noite se aproxima e penso o que aconteceria quando a madrugada, hora da PM entrar toda-poderosa-e-truculenta em ação, chegasse. De lixo, essas pessoas seriam tratadas como animais. Revejo os prédios abandonados e as silhuetas ao fundo ficam cada vez menores.

Nos dirigimos ao metrô da Luz. Ainda impactada pelo que vi, passamos novamente pela Estação Júlio Prestes. Os cavalos, acompanhados por PM’s, continuavam lá. O carro de uma emissora de TV parada em frente a eles já havia se retirado (se a polícia não está tocando o terror e atirando nos usuários que ficam na Cracolândia, não temos mais manchetes, não é mesmo?). As duas pessoas que vi uma hora antes, enquanto me dirigia à rua Helvétia, continuam ali. A mulher continua rabiscando o chão e falando sozinha. Falava alto, coisas que não consegui compreender. Olho pra ela. Ela olha para o ralo à sua frente, no chão. Os policiais conversam, riem, descontraídos.

A sensação é, não importa em qual volume a senhora fale, nem mesmo que grite: ela não será ouvida. Nem por policiais nem por ninguém. Continuará ignorada, como elemento natural à paisagem.  Assim como as pessoas da rua Helvétia, que só são lembradas ao se falar de tráfico e crime (e não de saúde, moradia, de plenajamento e gestão urbana). Todos nós somos culpados pela Cracolândia: ela é filha da especulação imobiliária e do descaso do Estado. Neta da completa indiferença. Minha, sua, de cada um de nós.  Senti vergonha pois, mesmo sendo contra essa operação na Cracolândia, senti medo de entrar ali. De esquecer, ainda que por alguns segundos, que aquelas pessoas eram … pessoas. Antes de estatísticas, orçamentos e eleições, não esqueçamos: estamos falando é de gente.

 

(foto retirada do texto “A Cracolândia que você não vê” – recomendadíssimo)

ps. Ação da PM na rua Helvétia, hoje de manhã.

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Uma resposta para “Não se esqueça: estamos falando de gente

  1. Ricardo 18 de janeiro de 2012 às 09:19

    Matéria muito boa. Duas características quero ressaltar: 1) estamos falando de gente, e, infelizmente pessoas que tem seu destino selado, aparentemente esperando a morte chegar; 2) o coração, habitat dos sentimentos, onde neste caso o altruísmo e a solidariedade mais doem. O crack chegou no Brasil no final dos anos 80, e a cracolândia surgiu em São Paulo por volta de 1990, e não poderia estar melhor situada que na “boca do lixo”, região do centro da cidade onde há anos moram a criminalidade e a prostituição, lugar dos excluídos. Hoje a preocupação do Estado, e da sociedade paulistana não é resolver um grave problema social, é apenas reformar a fachada, afinal, os turistas estão chegando e a casa precisa estar aparentemente em ordem pra recebê-los.

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