Mulher é naturalmente nada


Mais um 8 de Março. Mais um dia em que floriculturas devem ter faturado acima do comum com os que , para comemorar o Dia Internacional da Mulher, comprou uma rosa para dar à esposa, namorada, irmã, mãe, amiga e tantas outras categorias.

Ao longo do dia, recebi alguns “parabéns”. Em todos eles, SEM EXCEÇÃO, titubeei e perguntei: “Parabéns por que?” Em três ocasiões, não lembrei que as pessoas me congratulavam por estarmos no dia 8 de Março. E, para falar bem a verdade, apesar de compreender por que algumas pessoas me cumprimentaram, acho estranho dar os “parabéns” no dia de hoje – que, antes de ser dia de festa, é dia de luta e reflexão.

Comemoração?

O dia 8 de Março como data “comemorativa” da luta das mulheres foi oficializado durante a II Conferência Internacional de Mulheres, em 1910. Clara Zetkin, ativista pelos direitos femininos, propôs que a data se transformasse no Dia Internacional da Mulher para lembrar o ocorrido em 8 de Março de 1857 – quando 129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton, em Nova Iorque morreram. À época, período de grande desenvolvimento industrial, as tecelãs morreram carbonizadas na fábrica onde trabalhavam, após realizarem a primeira greve norte-americana conduzida por mulheres. Reivindicavam jornada de trabalho de 10 horas e melhores condições de trabalho. Desde então, esta data passou a ser dedicada à luta das mulheres pela igualdade de direitos em relação aos homens.

Feminismo não é o machismo ao contrário

Em todo 8 de Março, as mulheres são “parabenizadas” pelo seu dia. Entendo o porquê de muitas pessoas congratularem as mulheres de todo dia (e não só do dia 8 de Março). Mas, antes de comemoração, é importante lembrar que este dia surgiu como homenagem às  tecelãs mortas em 1857 e como meio de reconhecer a luta das mulheres. Ao contrário do que muitos (eu disse MUITOS) homens (e até mulheres) pensam, feminismo não é “machismo ao contrário” – ou seja: a supremacia da mulher sobre o homem. Feminismo, a meu ver, é o reconhecimento de uma disparidade de direitos e do acesso a eles (salário mínimo é obrigatório, segundo leis trabalhistas, mas  elas continuam ganhando menos do que os homens, mesmo exercendo a mesma função). Feminismo reconhece na mulher uma categoria política que deve se articular na conquista de direitos e respeitar as variações existentes do que “é ser mulher”.

Se essa é a sua visão de feminismo, acho que está na hora de rever seus conceitos.

Atire a primeira pedra a mulher que nunca ouviu ou pensou isso.

Mas afinal: o que é ser mulher?

O papo está muito bonito, com o reconhecimento da diversidade, mas você deve estar se perguntando: “Tá bom, mas o que diabos é ser mulher?”. A melhor resposta que eu posso te dar é: não sei. Seguida de outra pergunta: será que existe uma essência do feminino e uma clara teoria que explique o que é ser mulher?

Assim como o movimento negro e o movimento gay, é importante que as mulheres se enxerguem como grupo e se constituam enquanto categoria política. O movimento black power nos EUA, no início dos anos 60, foi essencial na valorização da cultura negra e na criação de instituições (políticas e culturais) para lutar pelos direitos dessa população no plano institucional. Mas, antes de formular uma cartilha do que é ser negro, mulher ou homossexual (se é que esse conceito de fato existe), tais movimentos buscavam construir uma identidade a partir do reconhecimento das diferenças.

Movimento black power: essencial na valorização da cultura e da biologia negra. O que esse cabelo fez para ser "ruim"?

Para o teórico cultural jamaicano Stuart Hall, no livro “Identidades Culturais na Pós-Modernidade”, a identidade se dá a partir das diferenças. Segundo ele, a “crise de identidade” vivida no mundo hoje não é necessariamente ruim. Ela é parte de um processo amplo de mudança que vem abalando as estruturas das sociedades modernas e as referências que ancoravam os indivíduos tão firmemente no mundo social.

Portanto, antes de traçar as diretrizes do que é se mulher, pergunto: não seria mais interessante pensar nas variações dessa categoria política?

O condicionamento e a construção social do corpo permitiu a criação de justificativas biológicas (dentre outras) para a escravidão e homofobia. Homossexualidade era considerada doença mental pela Organização Mundial da Saúde até 1990. Ouso dizer que, hoje, o papo colonialista de que  “negros são naturalmente fortes e, por isso, devem exercer trabalhos braçais” possui a versão atual de “negros são fortes e por isso se dão bem no esporte”. Negros e negras podem exercer trabalhos braçais e serem grandes atletas, mas estão longe de serem bons SOMENTE nisso.

Essa lógica de aprisionamento e opressão é a mesma. A lógica que diz que as mulheres devem ser magras e se cuidarem (com maquiagens e cirurgias plásticas) para serem felizes é exatamente a mesma lógica que diz aos homens para irem às academias, afinal, “lugar de mulher é no tanquinho”. A premissa de que “mulher é naturalmente maternal e nasceu para procriar” é a mesma que determina que o homem seja “O provedor” da casa. Quem diz que mulher que sai de vestido curto na festa é “galinha” e quer ser assediada (ou até estuprada) é a mesma que diz que “homem que rejeita uma transa é frouxo”. E essa lógica se repete em relação a negros e homossexuais (e suas variações).

Mulher é naturalmente nada. Afetuosa, carinhosa, materna, sensível, conciliadora, frágil, sensível… esqueça.

A mulher (bem como o homem) pode ou não ser tudo isso e tudo o mais que ela, sua trajetória e seus valores construírem. Tenho amigas que acham romantismo e “rosas com chocolate” no dia dos namorados uma babaquice pura e não vêem sentido no homem pagar as contas. Assim como tenho amigos que se emocionam ao ver filmes e adoram presentear namoradas, mães e amigas com flores e cartas. Não há respostas prontas: as definições ultrapassam “fronteiras” e não respeitam gênero, cor ou classe social.

Ser mulher é construir-se mulher

Como afirmou Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Essa foi a máxima do movimento feminista durante décadas. o papel de construção de uma identidade no meio social é um processo conflituoso de construção, de contestação e aceitação dos valores culturais em cada sociedade. São inúmeros os fatores que podem explicar por que uma mulher não gosta de rosas e acha o romantismo bobagem: psicológicos, biológicos, sociais, culturais. Descobrir-se (mulher, homem, homossexual, transsexual ou qualquer outra definição) é um processo lento, doloroso e libertador em que nos descobrimos enquanto indivíduos, composto por uma trajetória e inseridos em um contexto social. Descobrimos nossos limites e, a partir disso, aprendemos a lidar com eles (e com os outros a nossa volta). Salto alto? Não hoje, obrigada.

Ainda que eu ache estranho, dou os parabéns a todas as mulheres. E, como todo parabéns, o meu vem acompanhado de desejos.

Que toda mulher possa ser o que descobrir e almejar a ser. Que ela não seja motivo de chacota caso não tenha cinturinha fina e pernas torneadas. Que ela use a roupa que quiser, no comprimento que bem entender e não ouça, após um estupro, que “deu sopa pro azar”. Que ela cultive a sua beleza, seja ela branca, negra, amarela, laranja, azul ou rosa. Que ela seja respeitada pelos valores e idéias que defende, e não pelo número de manequim que veste. Que ela seja forte para não ter filhos, se assim o desejar, e não ser tachada de “incompleta” ou “infeliz”. Caso deseje a maternidade, que lhe sejam garantidos os direitos trabalhistas e assistência médica antes, durante e após o parto. Que ela descubra seus valores, busque uma (ou várias) essência(s) e não a imponha às demais. Que ela se respeite enquanto indivíduo e respeite outras que optarem por caminhos e essências diferentes. Mulheres são educadas e, muitas vezes, reproduzem essa lógica machista. Uma mulher chamar outra de “galinha”  por causa do cumprimento do vestido é prova cabal disso.

Lugar de mulher pode ser na cozinha. Em casa. No Congresso, no Senado, em movimentos sociais e universidades. Em empresas, hospitais, redações, oficinas mecânicas,  quadras e tantos outros lugares. Se elas assim o desejarem.

Tudo o que eu desejo nesse 8 de Março, a mulheres e também a homens, é liberdade. Se é impossível ser inteiramente livre, desejo que nos descubramos agentes de nossas vidas e aprendamos a lidar com as nossas múltiplas essências – sejam elas femininas, masculinas e tantas outras. Você quer definição? Pois, para mim, a graça está justamente em se perder na multiplicidade de escolhas e respostas. Descubra-se.

Parabéns a todas e todos que lutam, todo dia, pelo 8 de Março. Que nos descubramos mais mulheres, mais homens. Mais humanos.

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