Arquivos Mensais: março 2011

Yellow


Não, não estou me referindo à famosa música do Coldplay, tampouco filosofarei sobre o sol ou coisa parecida. Yellow, para mim, foi a primeira palavra que minha irmãzinha falou em inglês.

Até aí tudo bem, muita criança já nasce bilíngüe, sofre o ‘estágio/estádio do espelho’ para somente depois reproduzir a fala e o que mais Lacan e/ou a psicanálise quiser. O que me fez parar para pensar e vir escrever aqui foi o fato de que estou perdendo a alfabetização e tudo o mais da minha irmã que tem três anos de idade. E eu queria saber como é que ELA encara isso.

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“What lies beneath”: o carisma da rainha do gelo


Sábado à noite. Uma multidão de coturnos, corsets, roupas pretas e maquiagem pesada marcha em direção ao HSBC Brasil. Do lado de fora, o nome da voz que preencheria a noite: Tarja Turnen.

Tarja Turunen no HSBC Brasil em 12/03/2011

Cheguei às 21h – um eixo de simetria: uma hora para começar o show, uma hora desde que o portão fora aberto. Entre cruzar o portão e chegar à platéia, me deparei com três situações inusitadas. Não havia filas em nenhum dos setores. No corredor, uma “revista” no mínimo prática: “Tem alguma comida ou bebida na sua bolsa? Não? Então pode entrar”. Para coroar, estendi a mão para ser carimbada, e ela voltou limpinha. Ingenuamente, quis recorrer: “moça, o carimbo não saiu”. “É de neon”, ela respondeu (só que eu ainda não decifrei que tipo de neon é esse, porque nem trancada no escuro vi carimbo na minha mão).

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Rise and fall of Bruna Little Surfer


De antemão, peço desculpas por esse título. Ainda assim, é exatamente isso que Bruna Surfistinha mostra. O filme, baseado na autobiografia O Doce Veneno do Escorpião, delineia a vida e carreira da mais famosa garota de programa que o Brasil já conheceu.

Quer dizer, eu (pelo menos) nunca ouvi falar tanto de outra… Foi em meados de 2006 que Bruna alcançou fama nacional, graças à popularidade alcançada pelo seu blog. Neste blog, ela descrevia, sem inibições, suas experiências como prostituta. Na realidade, pode-se garantir que Bruna ficou famosa por publicar o que tantos gostariam de saber, sem ter pra quem (ou como) perguntar.

O filme inicia-se com os seus últimos momentos de vida familiar. Não se explica claramente como Raquel Pacheco se transforma em Bruna Surfistinha. Raquel foi adotada por uma família que tinha plenas condições de criá-la bem. Estudou em bons colégios particulares e sempre teve tudo de melhor a seu alcance. Aparentemente, nunca passou fome, foi abusada sexualmente ou coisa do tipo.

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Bons sonhos

Hit the road, Jack


Jack Kerouac, autor de On the road

“Tudo na vida é um país estrangeiro”, alega Jack Kerouac em On the Road e talvez seja por causa de frases como essa que seu livro é considerado a biblia hippie de muitas pessoas. A geração beat começou para mim com O uivo de Allen Ginsberg, livro-poema recitado por ele na Six-Gallery, em 1956, e que lhe rendeu um processo da União por obscenidade. Entretanto, só fui entender essa geração em sua essência com Jack Kerouac – On the road era, para mim, um daqueles livros que mantemos em nossas listas de “próximas leituras” eternamente, e assim o seria caso um amigo meu  não o tivesse comprado e, ao desistir de ler, me emprestado. Saiba mais

Em Júpiter, a transa é outra.


A capa do álbum Transa, de Caetano Veloso.

Ouvi You don’t know me, do Caetano, pela primeira vez, por meio de uma amiga que me indicou a música. À princípio o título me pareceu bastante pretensioso, até ingênuo de certo modo porque todas as pessoas que até hoje me disseram essa frase (seja em inglês ou em português e, okay, não foram tantas) eram bastante previsíveis ao contrário do que imaginavam. Logo de cara a música me impressionou pela levada lenta, quase uma balada, e me lembrou dos tempos do teatro e dessas músicas que tendem ao relaxamento de atores. Show me from behind the wall, cantava Caetano, quase como um pedido. À princípio nem identifiquei de que época era a música – ela me pareceu bastante atemporal, cabia em qualquer álbum do Caetano e, realmente, foi regravada diversas vezes, inclusive no recente (2005). Mais pro finalzinho da música, entretanto, uma voz feminina surge e diz: já temos um passado, meu amor, um violão guardado, aquela flor, um trechinho de Nostalgia, imortalizada pela voz de Gal Costa em Gal Total (1979). Saiba mais

RAF e Guerra Fria


Cartaz de procura de 1972, que trazia a foto de alguns dos membros do RAF

Quando se pensa na efeverscência política e cultural dos anos 1960 e 1970, é comum lembrar dos episódios de Maio de 1968 em Paris e da Primavera de Praga. Na Alemanha, o grupo Baader-Meinhof (ou Fração do Exército Vermelho, tradução para a sigla alemã RAF) foi uma organização de extrema esquerda que bombardeou (com o perdão do trocadilho) a segurança política da próspera Alemanha Ocidental, causando tal distúrbio que, em 1977, uma verdadeira crise institucional ameaçava o governo.

Filmes para aprofundar a discussão:
* O grupo Baader Meinhof (2008)
* A honra perdida de Katharina Blum (1975)
* Os anos de chumbo (1980)

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Candura


Cena do filme "A fita branca" (2009)

ATENÇÃO! SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME “A FITA BRANCA”, HÁ SPOILERS!

Em 1910, Freud escreve: “É facílima de explicar a razão por que a maioria dos homens (…) nada querem saber da vida sexual da criança. Sob o peso da educação e da civilização, esqueceram a atividade sexual infantil e não desejam agora relembrar aquilo que já estava reprimido”. O filme “A fita branca” se passa na mesma época em que a psicanálise começava a incomodar: uma época em que a euforia pelo progresso do início do século mascarava o mal-estar social que viria a explodir na forma da I Guerra Mundial. O longa-metragem de Michael Haneke, formado em Psicologia, Filosofia e Teatro, traz à tona muitas questões que perturbam o espectador; o drama de Nina, em “Cisne Negro”, parece ingênuo perto da angústia vivida por toda a pequena aldeia.

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Patinho Feio


Cena do filme "Cisne Negro" (2010)

ATENÇÃO! SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME “CISNE NEGRO”, HÁ SPOILERS!

“Cisne Negro” foi, para mim, mais do que um drama envolvente de excelente qualidade artística: também serviu como revisão de inúmeros conceitos que aprendi ao longo de minhas aulas de psicanálise freudiana. A análise da angústia de Nina nos permite entender não apenas seu caso específico, como também explicitar mecanismos presentes em todos nós e, até mesmo, aprofundar certas discussões apresentadas no filme.

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Entre uma pedra e uma pergunta dura de responder


ATENÇÃO! SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME, HÁ SPOILERS!

É necessário coragem para assistir ao novo filme de David Boyle “127 horas”. Não apenas para aguentar de olhos abertos as impressionantes cenas em que ele decide beber a sua urina ou cortar o próprio braço para sobreviver. Mas sim para responder a questão que permeia o filme: “Até onde você iria para manter-se vivo?”

127 horas preso a uma rocha pelo braço direito.A narrativa que se desdobra a partir das horas que se seguem ao acidente são o enredo do filme homônimo

A história verídica do alpinista americano Aron Ralston, que, enquanto escalava o canyon Blue John, em Utah, teve o braço direito esmagado por uma rocha e, preso a ela, ficou  impossibilitado de soltar-se por cinco dias. Os espectadores do filme assistem agoniados a passagem do tempo e o insucesso nas tentativas de se desprender do monolito.

Porém, o mais intrigante do filme não é descobrir se ele sobreviverá às péssimas condições, à debilidade causada pela falta de comida ou pela perda de sangue quando se perfura com um canivete cego.

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