Long live rock’n’roll


Mais um show de rock. Mais uma multidão. Mais horas de fila e espera.

Primeiro festival de música da minha vida. Típico da cultura norte-americana (que originou o Lollapalooza e tantos outros ), os festivais vem tomado cada vez mais espaço no Brasil. Apesar da presença de bandas como Joan Jett and the Blackhearts, O Rappa e Marcelo Nova (coroa que inspirou tantas bandas do cenário nacional de hoje e que fez um show repleto de rock barulhento e de ironia corrosiva), o quinteto de Chicago era, sem dúvida, a atração mais aguardada da noite.

Após horas de espera, intermeadas de sede, fome e muito cansaço. 20h30 chegava quando as luzes se apagam. Os gritos eclodem e a multidão se amontoa, andando para frente, na tentativa desesperada de chegar um pouco mais perto.  Um leve aquecimento; a ansiedade paira no ar, absoluta. Os primeiros acordes elétricos e furiosos começam e “All My Life”, música que conheci aos 13 anos no Disk MTV, invade o Joquey, uníssona e absoluta.

Logo em seguida, Times Like These emplaca, cantada por cada um dos que assistiam e faziam o show. “It’s times like these / You learn to live again / It’s times like these / You give and give again” estão, para mim, entre os meus favoritos, donos de uma simplicidade e força brutais.

Logo depois, reconheço os primeiros acordes de uma das minhas favoritas (se é que, para uma banda como o Foo Fighters, existe alguma mais favorita do que outra). “Too alarming now to talk about / Take your pictures down and shake it out ..”. Quando me dou conta, estou de olhos cerrados, pulando com as forças que me restam e alcançando até onde meu tamanho (ou a falta dele) me permitem, gritando cada palavra de “My Hero”. Pelo que me lembro (vagamente), essa foi a primeira música do Foo Fighters por que (perdidamente) me apaixonei. “Learn to Fly” vem logo em seguida – foi com essa música que descobri uma das marcas do Foo Fighters: a de fazer clipes-curta-metragens cômicos. Se não fosse um senhor musicista, Dave Grohl (com suas caras e bocas) poderia ser um ator de stand up comedy, tranquilamente.

Em “Cold Day In The Sun”, olho para o palco, desacreditada. Taylor Hawking sai da bateria e troca de lugar com o (todo-poderoso) Dave Grohl. Perplexa, vejo Grohl na bateria (cena que só havia visto pela televisão, em clipes e DVD’s do Nirvana – banda que, junto com Red Hot Chilli Peppers, me fez encantar pelo “tal” rock’n’roll). Antes de abandonar o trono, Taylor brinca com o público, lembrando o que “irererêêê” feito por  Freddie Mercury 26 anos antes, no estádio de Wembley.

Grohl, um fenômeno musical (canta-toca guitarra-bateria-e-o-que-mais-você-quiser) joga os cabelos e faz movimentos rápidos, quase imperceptíveis, com as baquetas. Tamanha intimidade com a bateria demonstra que o rei nunca perde a majestade, por mais que os anos passem e as funções dentro da banda mudem. Taylor Hawking, após entregar as baquetas ao mestre, assume o vocal e a troca mostra a sintonia e a intimidade de cada um dos músicos com sua obra.

“Rope” é a primeira do novo CD a ser tocada, com seu ritmo marcado e batida forte. “Arlandria” é outra faixa fresquinha, recém-saída do Wasting Light – CD que vendeu mais de 500 mil cópias desde seu lançamento, em abril de 2011, e o primeiro álbum a ter o guitarrista Pat Smear como membro oficial (fenômeno que não ocorria desde 1997). E para quem curte as premiações oficiais, o novo CD foi considerado o melhor álbum de rock pelo Grammy 2012.

White Limo foi outra do novo CD que ganhou corpo no Lollapalooza Brasil. A eletricidade da guitarra ficou ainda mais forte no palco, onde a voz de Grohl e o instrumentos formaram um único e afinado som. “Arlandria” é a próxima e tem um desfecho absolutamente genial com as batidas infinitas, ritmadas e descompassadas de Taylor Hawking – que já havia sido o baterista de Alanis Morissete na turnê Jagged Little Pill, o terceiro da discografia da cantora canadense. Em diversos desfechos, Taylor batia, exausto, porém incansável. Ao término da última batida, se encostava, ofegante e (lindamente) descabelado, nos pratos da bateria.  “Walk” e “Dear Rosemary” são as outras do novo CD a ganhar concretude sobre o palco (para meu desespero, “Bridge Burning” não foi tocada e continuará sendo lembrança vivida somente pelo computador).

... e pensar que eu já adorava a bateria (e os bateristas) antes de vê-lo ao vivo.

“Best of You” fecha a série antes do pequeno intervalo. Olhos fechados, garganta à tona e bolsa largada ao chão. A letra mais forte, para mim, ganha vida, ao vivo, nos gritos intocáveis de Grohl, que sabe aliviar a voz quando a música e a ocasião o pedem. “I was too weak to give in / Too strong to lose” foi um dos versos que cantei, pensando “hoje, eles foram feitos para mim”, com o pesar de imaginar alguém capaz de nos tirar a fé e o que temos de melhor. A letra é tão forte que não me atrevo a tecer quaisquer palavras sobre ela; a deixo falar por si só. “Ohhh” minutos a fio só permitiu a Grohl olhar o público, perplexo, e dizer “I fucking love you people, you’re beautiful”.

No pequeno intervalo feito antes das faixas derradeiras, a banda abandona o palco. No telão, surge Dave Grohl, bebendo cerveja, fazendo caretas e perguntando ao público quantas músicas ainda serão tocadas. Duas? Três? Cinco, diz Taylor, sorrindo, logo atrás dele. Então, os dois se contradizem, barganhando quatro ou cinco músicas. Grohl brinca de mímica, dizendo estar com a garganta fraca – e virando um longo gole de cerveja logo em seguida, para a inveja do público que sonhava com uns poucos goles d’água. Os dois terminam a “discussão” e voltam para fechar o espetáculo.

Taylor a versão loira de Dave ou o contrário?

No palco, Grohl agradece ao público e diz não acreditar que  Foo Fighters demorou tanto tempo para voltar ao Brasil. “Prometo que não demoraremos tanto para voltar. Quando podemos voltar? Amanhã?”. Para as 70 mil pessoas ali presentes, esse show não acabaria nunca. Ele lembra do começo da banda e dos nomes que a influenciaram. “Lembro quando conheci uma banda num pequeno bar em Chicago. Ela me influenciou muito. Quando vi uma pequena foto do Jane’s Addiction na Rolling Stone pela primeira vez, acreditei que nós também poderíamos ser uma banda de rock de verdade”. Grohl agradece, diz que o show foi maravilhoso e que foi lindo ver a platéia cantando e pedindo cada música. “Agora essa daqui é para vocês”. Os primeiros versos de Everlong traduzem o momento, a espera longa, mas finalmente consumada, de 17 anos entre o público e a banda: “Hello, I’ve waited here for you / Everlong”

Do maestro e sua maestria

Antes do show começar, comentei com amigos temer que o rock, orgânico, provocador e agressivo, acabasse em um futuro não muito distante (perdoem-me o autoritarismo, mas Pelanza & Cia estão a anos-luz do que eu considero “rock”). Eu, admiradora de rock das antigas, me pergunto quais seriam as grandes bandas da minha geração (angústia que começou a ser sanada no show do Pearl Jam).

Em 2h30, é como se  quinteto de Chicago tivesse me colocado a mão no ombro e dito: “calma, olha o rock aqui. Ele está mais vivo do que nunca”.  Rápidos momentos da energia explosiva da guitarra com um toque da gaita reacenderam o rock folk de Bob Dylan. Ao brincar com o público e trocar de lugar com Dave Grohl, Taylor Hawking  me lembrou o Queen – que domava um estádio repleto de gente com maestria e ares de brincadeira. Ao entrar no palco, Joan Jett tocou clássicos como “Bad Reputation” e “I Love Rock and Roll”, um dos hinos consagrados da história do rock. Lenda viva do rock, Joan foi considerada pela Rolling Stones uma das melhores guitarristas de todos os tempos e foi a primeira mulher a começar sua própria gravadora. Ao entrar no palco, ela amansa a guitarra e escracha a provocação, a ojeriza e o escândalo inerentes ao rock. Pat Smear faz gestos que beiram o pornográfico ao tocar a guitarra e atinge o orgasmo ao quebrá-la em pedaços. Não há instrumentos que resistam a um bom (e agressivo) show de rock. Isso sem falar na lembrança de Pink Floyd, qando “In the flesh?” foi tocada pelo quinteto de Chicago.

A banda é completa: boa musical e esteticamente falando. É só escolher.

Dave Grohl mostrou absoluto espírito de palco, alternando os papéis. Como maestro, atiçava 70 mil vozes com um único acorde ou domava tal público com um sorriso leviano. Um olhar ameaçador mirava o público, tentando captar suas vontades e inquietações. Como platéia, por vezes se calava e ouvia os seus versos, cantados freneticamente pela multidão. Donos das mais variadas caras e bocas, Grohl, bem como os outros integrantes, pareciam brincar. Risos e olhares transmitiam a leveza da sintonia entre eles. Antes de mostrar por que eram os mais esperados do Lollapalooza, Dave Grohl, Taylor Hawking, nate Mendel, Chris Shiflett e Pat Smear disseram por que o rock ainda merece todo o amor e respeito.

Grohl: caras e bocas

 Com uma sintonia e precisão de invejar bandar com mais de 30 anos de existência, o Foo Fighters deixa a leveza do rock descompromissado, fabricado após as aulas do colégio e, assim, transforma o Joquey em uma grande garagem a céu aberto, incubadeira do rock em sua gênese. Além da vivacidade do rock de garagem, o Foo Fighetrs recorda que os grandes sempre revivem e servem de inspiração para os que chegam. Dos tantos arrepios, gritos e pisões que marcaram o meu show do Foo Fighters, fica a sensação nítida de que o reinado do rock – visceral, pulsante, cômico, agressivo e romântico – continua.  Vida longa ao Foo Fighters e a eternidade ao rock.

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