Do lado de cá


Inicialmente postado em Meu Copo de Café.

Acho que vivo em um outro mundo. É que quando li nos jornais hoje e quando vi nos canais de TV e internet ontem, tive a impressão de que um espetáculo foi feito na USP, ao raiar do dia. Nas palavras dos jornais, foi uma “megaoperação”: 400 policiais do Choque (numa proporção de quase seis policiais para cada estudante que estava na reitoria), policiais do COE (Comando de Operações Especiais), cavalaria, 20 viaturas, helicópteros. Não entendi quando mostraram os policiais arrombando as portas e depois, mostrando os batentes quebrados, os apresentadores falando que os estudantes tinham feito tudo aquilo. Não entendi porque criminalizar o Movimento Estudantil. Não entendi a comemoração.

Desafio qualquer um a me mostrar uma única cobertura da imprensa que não tenha tentado desmoralizar os estudantes, adjetivando-os. Desafio qualquer um a me mostrar argumentações sem cunho moralista que a imprensa tenha dado nesse tempo todo. Eu desafio porque sei que não existe, porque sei que não falam que nós, estudantes, estamos propondo um plano de segurança embasado não na repressão, mas no acolhimento da comunidade. Nenhum veículo fala que nós estamos propondo maior número de circulares nos campi da USP, que os circulares da Cidade Universitária vão até o Metrô Butantã, que queremos uma iluminação decente em todos os campi, que queremos os campi com atividades culturais.

Disso ninguém fala porque dá mais audiência o apresentador pagar de salvador da pátria, bradando aos quatro cantos frases de efeito. “Mimados”, “baderneiros”, “rebeldes sem causa”, “maconheiros”, entre tantos outros apelidos carinhosos.

Mas qual política, para vocês é a solução? “Baderneiros!”. Por quê não falam das nossas reivindicações? “Mimados!”. Por quê não querem discutir? “Maconheiros!”. Quais são os seus argumentos? “Baderneiros, mimados e maconheiros!”.

Houve discenso sim, no começo do movimento. Foi oportunismo de setores do Movimento Estudantil fazer de uma abordagem policial pretexto para a ocupação da FFLCH; foi oportunismo também terem ocupado a reitoria, após uma assembleia que teve uma série de contratempos e problemas com legitimidade. Um ponto, no entanto, é inegável: tanto uma quanto a outra promoveram um intenso debate entre os alunos e mais, fizeram o Movimento Estudantil aumentar mais e mais.

Após essa incursão patética da Polícia Militar uma coisa é certa: os estudantes ficaram mais unidos. Os mais de 2 mil estudantes reunidos ontem no vão da História, por mais de 3 horas, provam isso. A truculência com que a ação foi feita e orquestrada inspirou muita gente que estava reticente a tomar partido nisso tudo e o movimento só tende a aumentar.

Mas, como acho que vivo em outro mundo, não sei essas informações vão chegar do outro lado. Se chegar, provavelmente estarão distorcidas.

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