Olhos verdes difíceis de injuriar


As luzes se apagam. Alguns focos de luz iluminam o palco. Ele entra, discreto, de blusa e calça pretas. O som começa, o violão dá seus primeiros acordes. “Boa noite”, diz, sorrindo.

Acompanhado por uma banda maravilhosa e iluminação belíssima, os olhos-verdes-mais-famosos-do-Brasil começam a apresentação. Ao término da primeira música, ouço os primeiros assobios e “LINDOOOO” da noite. Na timidez que me já parece usual, não me deixo zangar com os poucas falas trocadas com o público. Ele sorri, agradece e inicia a próxima canção.

Na quarta música, sinto meus lábios molharem. Incontrolavelmente, as lágrimas escorrem, contrastando com a leveza da imagem do palco, iluminado de amarelo. “Se eu só lhe fizesse o bem / talvez fosse um vício a mais / você me teria desprezo no fim..”. Sempre adorei essa música, mas somente no show percebi a veracidade dos primeiros versos de “Injuriado”.

Em “Querido Diário” , percebo um sorriso tímido, porém mais largo, ao vê-lo cantar “hoje afinal / conheci o amor”. Perguntei-me por que ele sorriu lindamente naquele verso. Além de estar feliz pelo show e gostar muito dessa música, pensei se não haveria algo mais pessoal nessa manifestação de dengo. “Talvez a Thais Gulin tenha um mea culpa nesse sorriso”, penso, com uma pequena dor-de-cotovelo. A confirmação vem logo depois, com a música “Essa Pequena”. Ou há alguma dúvida de que a moça serviu de inspiração para “Meu tempo é curto, o tempo dela sobra / Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora”?

Passam-se alguma faixas e então reconheço “Se você crê em Deus / Erga as mãos para os céus / E agradeça…”. Para mim, essa é uma das letras mais fortes. Pergunto-me se pode, uma única pessoa, encarnar tantos papéis importantes, como fêmea, irmã e incesto. Se alma gêmea já é complexo o bastante, imagine todos eles juntos?

Ouso dizer que nem Vinícius resistiu a Chico

As luzes se avermelham, em tom de suspense, quando começa “Geni e o Zepelin”. Somente no show percebo o toque latino americano (de tango argentino) nos intervalos entre a história e as pedradas de Geni. Quando descobri a música, no começo da adolescência, me perguntava quem era a pobre moça, rejeitada e açoitada na cidade. Essa resposta só obtive ao ler “A Ópera do Malandro”, na transição para a vida adulta. O desenho de roda de samba no cenário, a simplicidade de Chico e o gingado de seu samba me deixam um gosto de Rio de Janeiro na boca.

Das poucas boas lembranças que tive do show no Rio de Janeiro, me marcou muito o senhor que subiu ao palco para cantar ao lado do galã. Eleita a minha menina-dos-olhos do novo CD, “Sou Eu” foi ainda melhor no show de São Paulo. Ao iniciar a segunda parte da música, sob o silêncio dos instrumentos, o badalado Chico das Neves pede a participação da platéia e pergunta algo como “e aí, ninguém vai aplaudir”?. Chico Buarque se delicia e ri, despreocupado, surpreso. A intervenção é como santo remédio: encabulada, a platéia acompanha o restante da música com palmas. Impecável com terno branco, sapatos e chapéu panamá, Wilson das Neves esbanja simpatia e enriquece ainda mais o show.

Em seguida, para delírio das moças, o menino Chico olha para a mesinha ao seu lado e veste o chapéu panamá, esquecido (propositalmente?) por Wilson das Neves. Ouço os gritinhos da mulherada (acompanhados pelos meus suspiros), então o “forró” de “A Violeira” começa. O chapéu confere à música um ar de chamego ainda maior. A percussão de “Sinhá” é impecável e completa, bem como sua letra.

Ao longo do show, confirmo a sensação que tive no Rio de Janeiro: Chico é rei, praticamente Deus sobre o palco. Algo que beira o surreal, seja pelos acordes ou pelas letras, pelos olhos verdes ou pelo sorriso tímido. Não há uma faixa que não acabe com gritos de “LINDO” ou “MARAVILHOSO” da mulherada – de todos os tipos, cores e credos. A pluralidade de admiradoras reflete a versatilidade de Chico: para as politicamente engajadas, há compositor que protestou contra a ditadura militar com os versos de “Cálice”. Para as mais românticas, “O Meu Amor” é oração de todo dia. Para quem gosta de uma roda de samba, “Feijoada Completa” é a receita do gingado leve e de um sorriso roubado. Em suma: as faces e as cores de Chico são infinitas.

Não sei se ele estava ainda mais charmoso ou era eu quem estava menos crítica, mas sinto que fiz as pazes com Chico. “Ele é muito quieto, quase não interage com o público né?”, ouvi minha mãe dizer. Ofendida, quase lhe respondi: “O que importa?”. Lembro que “ele não interage com o público, é muito quieto, não tem presença de palco” foram as críticas ácidas que soltei, após vê-lo no Rio. Hoje, sem qualquer pesar, digo: não importa. A timidez faz parte do jogo de sedução que atinge 10 em cada 10 mulheres quando se trata de Francisco Buarque de Holanda.

e eu, que detesto cigarros, acho que ele fica bem até tragando um.

À minha frente, vi a cena linda da silhueta de casais misturadas às cores do palco. Românticos, recatados ou não, senti pena dos maridos e namorados que ali estavam. Acho que todas as mulheres se sentiam homenageadas pelas músicas. Assim sendo, os casais estavam incompletos, já que a alma gêmea das moças estava, absoluto, no palco.

Saí com a alma leve, de mulher que faz as pazes com o enamorado. Voltando pra casa, reflito que as lágrimas não poderiam ter vindo em outra faixa. “Porém não fui tão imprudente / E agora não há francamente / Motivo pra você me injuriar assim”. Respiro aliviada, pensando que não há injúrias que tirem o seu charme. Por mais timidez que ele demonstre, uma segunda noite com Chico Buarque me impossibilita de resistir ao encanto dos seus olhos verdes e à beleza de seus versos.

Após dois “bis” e um sorriso largo ao fim do show, ele se curva, levemente, em sinal de agradecimento. Ele encerra e me pede “Não se afobe não / que nada é pra já / amores serão sempre amáveis”. Mexida com “Futuros Amantes”, saio me perguntando: tem como não se afobar com ele? Se Dona Flor ousou ao ter dois maridos, como acontece no romance de Jorge Amado, Chico Buarque não tem limites. É um fenômeno, inexplicável, cujos amores são incontáveis e aumentam, verso após verso. Thais Gulin que me perdoe, mas Chico é meu.  Seu. Nosso. Do Brasil inteiro. Tendo saído ressentida do Rio de Janeiro, como se tivesse acabo de brigar com o enamorado, saio aliviada do show em São Paulo, com o gosto de reconciliação na boca e leveza de alma no peito.

Como injuriar? (eis a minha foto preferida)

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