Sobre o direito de falar e o dever de ouvir


“Oi, boa noite.

Meu nome é Alessandra e sou aluna do segundo ano de jornalismo.

Pelas falas de hoje, acho que a maioria das pessoas aqui é contra a PM no Campus.

Acho que, para uma mídia que generaliza e superficializa o debate, não podemos dar respostas também superficiais. Só dizer ‘Fora PM do Campus’ não adianta. A sociedade quer respostas. Acredito que tem gente que é a favor da PM aqui porque não vê outra maneira de resolver o problema de segurança no campus.

Gostaria de encaminhar as propostas que vou falar agora para a mesa.

Na ECA, discutimos em assembléia algumas possíveis medidas contra a insegurança aqui dentro.

A questão central é criar uma política de segurança para a USP.

Hoje, temos uma estrutura fragmentada, com Guarda Universitária, terceirizados e a PM. Mesmo com todas elas,  o problema da segurança continua.

É preciso criar uma organização, autônoma e centralizada, gerida pela própria USP, contando com funcionários, professores e alunos, pois todos eles vivem a Cidade Universitária, diariamente, sabem o que ocorre e como as coisas se dão aqui dentro. Uma organização de segurança com mais integrantes mulheres (para atender as mulheres que sofrerem possveis estupros). Que receba treinamento em direitos humanos, que seja preparada para lidar com as pessoas que usam o espaço (e não atirem bombas e balas, antes de qualquer coisa).

Além disso, é preciso investir em infra-estrutura. Em vez de gastar dinheiro alugando prédios fora da Cidade Universitária (lembrando que o reitor está sendo investigado pelo Ministério Público por improbidade administrativa), a reitoria deve investir dinheiro aqui dentro. Melhorar a iluminação e podar os matagais espalhados pelo campus. A PM entrou aqui e a Rua do Matão continua um breu perigoso e escuro, propício a assaltos e estupros. Ampliar a circulação de circulares e de ônibus, inclusive aos fins-de-semana, também é fundamental.

Outra questão é a circulação de pessoas na Cidade Universitária, que fica praticamente deserta nos fins de semana, favorecendo a ocorrência de assaltos e crimes contra quem circula aqui. Pensar em atividades culturais que tragam as pessoas que financiam a USP ( por meio de impostos) para dentro do Campus. Programas de extensão que promovam não a transferência, mas a TROCA de conhecimento entre a comunidade acadêmica e a sociedade.

Na 5ª feira, quando houve a confusão na FFLCH e eu senti o gás lacrimogênio entrando pelo meu nariz, tentei imaginar o que ocorre, todos os dias, nas periferias. Se a PM joga bomba de gás lacrimogênio, bala de borracha e spray de pimenta em estudantes da maior Universidade do país (o que vai parar no noticiário em questão de minutos) tentei imaginar os negros (e) pobres assassinados por policiais, todos os dias, que não são lembrados pelos jornais.

A PM é um problema social, que sofre com a corrupção, a falta de preparo para abordar pessoas, se valendo de critérios preconceituosos para abordar mal-vestidos, negros, barbudos e “hipongas”. Deixo uma pergunta para vocês: se a PM não dá conta de resolver a questão de segurança lá fora, o que faz a gente acreditar que ela vai conseguir resolver o problema de segurança aqui dentro? Colocar a PM no Campus é copiar uma lógica que está dando errado na sociedade e colocá-la dentro dos muros da Cidade universitária.

As universidades devem propor medidas para os problemas da sociedade, formular uma nova lógica para superar as “soluções” que se mostram falhas. A USP deve pensar a questão da segurança no campus e na sociedade, vendo a complexidade e a extensão do problema e não achar que colocar mais policiais sem discutir isso com a comunidade acadêmica (e com a sociedade) vai resolver o problema.

Se a USP só conseguir ver segurança como sinônimo de PM, então acho que a ela não é a Universidade que eu pensei que fosse.

Assembléia de alunos da USP, no vão da História

01/01/2011

Tudo o que eu tentei falar ontem, para centenas de alunos que, como eu, gastaram horas para discutir, ouvir e pensar em outra solução que não se resuma a mais homens armados na Cidade Universitária. Que acham que os pontos de vista quebram os muros dos departamentos e não obedecem ao estereótipo “Poli = reaça” e “FFLCH = baderneiro”.

Discutir segurança (sociedade e o papel da Universidade) não é um problema fácil. Não há resposta rápido para o problema. Para o que eu defendo, até pior do que colocar a PM na USP é SUPERCIALIZAR a questão a “UNIVERSITÁRIOS, MACONHEIROS E BADERNEIROS” e IMPEDIR ESSE (E QUALQUER OUTRO) DEBATE.

O conhecimento se constrói a partir da discussão, da proposição e da derrubada de teorias.

Democracia envolve o direito de falar e O DEVER DE OUVIR.

Se nós, universitários, copiarmos a democracia “todos falam mas ninguém ouve”, passo a me questionar do poder da universidade e da nossa capacidade de construir uma sociedade melhor: mais democrática e mais humana.

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3 Respostas para “Sobre o direito de falar e o dever de ouvir

  1. Victória Cirino 5 de novembro de 2011 às 13:25

    Como sempre, muito bem escrito e fundamentado :) Ale, você sabe onde podemos obter as informações sobre quantos crimes ocorrem na USP por mês e quem registra essas ocorrências? Eu não faço a menor idéia, em termos de quantidade, quantos e quais crimes ocorrem e onde ocorrem. Você sabe onde podemos conseguir essa informação?

  2. Rodrigo 4 de novembro de 2011 às 19:43

    Adorei, ainda mais quando o que se está vendo na internet é a avalanche de um discurso de apologia ao ódio cego.

  3. Mariane Rodrigues 3 de novembro de 2011 às 10:11

    Muito bom texto e uma ótima fala lá na assembléia Alê!

    Você, a Sô e a Lira nos deram orgulho de ser da ECA com belas argumentações.

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