Os ecos de Seattle na minha memória


Chego sozinha, ao bom e velho Cícero Pompeu de Toledo. Vê camisetas e amantes do rock andando, em procissão. Cabeludos, barbudos; cavanhaques, unhas vermelhas; meia-idades e moleques. Procuro o meu portão. Entro. Converso com um grupo, mudo de lugar e encontro outra moça que,tbm sozinha, decidiu ver Pearl Jam de qualquer maneira. As luzes se apagam. Os gritos começam. E, junto com, um dos shows mais sensacionais de que tenho lembranças.

Pessoas se aglomeram na pista. O eco das palmas se espalha pelas arquibancadas, desrespeitando muros e grades. Eddie Vedder, absoluto com a combinação grunge “cabelo, barba e olhos azuis”, se apresenta com uma voz que, uníssona, impera e se une a outras 60 mil para dar vida a hinos como “Alive”. “Even Flow” torna-se ainda mais enérgica, não deixando muitos na arquibancada (como eu) no chão. Os solos de guitarra interrompem o refrão e prolongam a música, que ganha dimensões que esmigalham as paredes do Morumbi e invadem a cidade.

Black, uma das minhas favoritas (e de muitas das 60 mil pessoas que lotavam o Morumbi ontem), torna-se ainda mais lendária. A guitarra começa e já fecho os olhos, sem pensar em nada, deixando os acordes e as vozes ao meu lado me guiarem. A voz de Vedder se une à dos fãs e forma um coral que, após 6 minutos, sussuram os segundos finais de um dos maiores clássicos da banda (e da história do rock).

O poder dos ecos advindos de Seattle é tão grande que músicas mais românticas como Last Kiss e Just Breath derretem casais e até solteiros. O mais incrível é ver como todos se sentem acolhidos nas 30 faixas tocadas pela banda, berço de crias como Nirvana, Alice in Chains e Stone Temple Pilotes. Casais de diversas idades, famílias e grupos de amigos. Todos revivam lembranças e emplacam sorrisos ao ouvir (e cantar) trilhas sonoras de momentos que se tornaram inesquecíveis. Lembro de amigos queridos, me apresentando faixas como “Elderly woman behind the counter in a small town” no colegial ou que consideram “Black” a música da sua vida. Seja pelas lembranças ou pelas pessoas que fazem o show estando fora do palco: mesmo indo desacompanhado, como eu, é impossível se sentir sozinho.

À minha frente, um grupo de amigos se abraçam, pulam e se olham, como se dizendo “não acredito que estamos vendo isso ao vivo”. Ao vê-los, me pergunto quantas bandas de rock underground e quantos amores não nasceram (e morreram) acompanhados por Eddie Vedder, Jeff Ament, Stone Gossard, Mike McCready e Matt Cameron.

Ontem, vi a universalidade do Pearl Jam, capaz de ser a trilha sonora de uma vida inteira. Nunca hei de esquecer o rosto das pessoas que, incrédulas, reviviam lembranças e construíam mais uma que tivesse a trilha sonora cantada pelo Pearl Jam que, em 2011, completou 20 anos de carreira. O português mal falado, os cabelos molhados  e os mil agradecimentos de Eddie Vedder, que ressaltou o quanto a banda estava feliz de retornar ao Brasil após 6 anos, ecoarão na minha cabeça toda vez q eu ouvi-los. “Vocês são lindos. Obrigado por nos ouvirem, por estarem aqui”. Nós é que temos que agradecer, caro Vedder.

Além do show, devo agradecer pela quebra de todos os preconceitos e más impressões que  roqueiros (velhacos) construíram sobre o grunge e sobre os anos 90 (“década que desvirtuou o rock”).  Rock, antes de categoria, é música. Infelizmente, a música precisa ser categorizada, classificada, por críticos e jornalistas mas, para mim, ela é sobretudo a capacidade de evocar sentimentos, lembranças, vontades. Se alguém tinha alguma dúvida de que o grunge merece respeito, acho que  as 2 horas de show  ontem (e todos os solos de guitarra, o som limpo e a voz impecável de Vedder) disseram que sim. Hoje, posso dizer sem pesar,  sorrindo: “Sou cria da década de 1990, do grunge e de Seattle”.

"Me perdoem, mas eu vou falar em inglês. Meu português é tão ruim que eu não consego nem falar mer..d"

Das tantas lembranças que o show de ontem assinou em minha memória, levo a imagem do ruivo à minha frente, que pulou, bateu palmas e fechou os olhos, cantando e abraçando muito os amigos ao seu lado. Vi todos ali, reunidos, cantando juntos as  músicas que imagino que devem ter tocado em alguma garagem, nos ensaios da banda da adolescência que ia sair do underground e seguir estradas mundo afora. Em inúmeras vezes, o vi sorrindo, incrédulo, contemplando o palco como quem admira uma obra de arte. Uma pintura feita para ele. Por ele. E por todas as centenas de vozes que ecoam o som do Pearl Jam no Morumbi. Em qualquer parte do mundo e em todo canto da memória.

Anúncios

Uma resposta para “Os ecos de Seattle na minha memória

  1. Gilberto De Arruda Giarelli 5 de novembro de 2011 às 23:08

    Que belíssimo texto. E que orgulho da minha pequena! Viva o Grunge!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: