A poesia dançada de uma vida íntima


O último acorde se alonga e cessa. Os corpos param de se mexer, envolvidos em um longo abraço. Faz-se escuro e uma salva de palmas interrompe o transe. “Eu queria que não acabasse”, comenta a amiga sentada ao lado. “Eu poderia ficar assistindo para sempre.”
Depois de presenciar um dos mais belos pas-de-deux que já vi, o segundo movimento de Bachiana n°1,  coreografado por Rodrigo Pederneiras para a São Paulo Companhia de Dança (SPCD), percebi neste comentário o sentido da dança.
Harmonizar o corpo e a música de tal forma que não se permite desviar os olhos deste momento. Provoca-se um anseio interno que gostaria de prolongar pelo maior tempo possível este encontro. Talvez seja a ideia de que é breve e finito que confere a urgência de olhar.
“Cada nota da música de Villa-Lobos havia sido coreografada” explicou a diretora artística da São Paulo Companhia de Dança, Inês Bogéa, sobre a peça inspirada nas Bachianas Brasileiras n °1, de Heitor Villa-Lobos.

Pas-de-deux de Rodrigo Pederneiras para SPCD

Pas-de-deux de Rodrigo Pederneiras para SPCD

Um conjunto de violoncelos ao fundo intensificou a composição dramática em um cenário mínimo, na sexta-feira (1°), na Sala São Paulo. À meia luz, o casal se posiciona no palco. É impressionante a beleza e força dos corpos.
E eles, de fato, deslizam pela dança, cada passo correspondente a uma nota de Villa-Lobos.
Não parece uma dança que deve ser presenciada, de tão íntima. O casal se envolve em abraços, apertos, em quase beijos e carícias apaixonadas.
Quando o casal está sob o foco, há a melancolia de um término e a urgência de uma reconciliação. Há momentos de movimentos rápidos e precisos, quando se ergue a bailarina no ar, esta com as pernas em perfeito ângulo 180°,  com total domínio dos esguios corpos. Há outros, em que repousam um sobre o outro, aconchegados na ideia de que conhecem cada nota – e centímetro – de seus corpos.
Ao início, meio e final, deseja-se olhar eternamente pelo buraco da fechadura desta vida íntima.
Nesta noite, a interpretação do pas-de-deux fora dos bailarinos Joca Antunes e Karina Moreira. O espetáculo Bachiana n °1 foi eleito o melhor espetáculo de dança de 2012 pela revista Veja SP.

Espetáculo crescente

Bachiana n°1 fazia parte do espetáculo composto por mais outras duas coreografias da São Paulo Companhia de Dança. Todas foram interpretadas ao vivo pela Orquestra Sinfônica de São Paulo, dando à dança uma organicidade que só a música ao vivo permite.
E a cada peça, primeiro a Pormenores (2012) e depois Utopia ou Lugar que Não Existe (2013), o espetáculo crescia aos olhos da plateia.
Todas as coreografias eram contemporâneas, exigiam alto nível técnico e exploravam a força dos bailarinos, ao mesmo tempo em que costuravam os movimentos com delicadeza e fluidez. Os figurinos impecáveis compartilhavam da cena, davam sentido ao movimento e à temática.
Em Pormenores, destaca-se a proximidade entre os dançarinos, que muitas vezes precisavam se apoiar um no outro para dar continuidade ao movimento, como alavancas. Chamou a atenção os duos entre dois homens  e duas mulheres, rompendo o paradigma clássico de duetos entre homem e mulher. Os encontros eram movidos ao único violino presente em cena, tocado pela violinista da Osesp Soraya Landim, ela também uma bailarina no palco, movimentando seu arco durante dois solos para violino de Bach.
Em Utopia ou Lugar que Não Existe, o posicionamento dos bailarinos, vestidos em malhas pretas e brancas, e a iluminação davam a ideia de nudez no palco.

Malhas e iluminação dão  efeito de nudez

Malhas e iluminação dão efeito de nudez. Foto: Marcela Benvegnu/SPCD

A diretora da companhia paulista explicou, depois, que o grafismo e alternância de cores das malhas serviam para valorizar as mãos ou as pernas em determinados momentos.
“É interessante ver as mãos cobertas, nós, que estamos acostumados a ver a continuidade do movimento, vemos o branco cortando o horizonte”, afirmou Inês, durante uma breve aparição no palco.
Neste ballet , o figurino fazia parte da interpretação da dança. As malhas extremamente coladas valorizavam os corpos impecáveis dos dançarinos.

A música desta vez era conduzida no palco pela pianista Cristiane Bloes, do Conservatório de Tatuí.  Ela tocou Ponteios, de Camargo Guarnieri.

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Uma resposta para “A poesia dançada de uma vida íntima

  1. Rosana Ades 5 de novembro de 2013 às 20:35

    Parabéns pelo texto tão bem explicado… dava prá “visualizar” o seu relato. Mas sou suspeita prá falar aqui, porque sou sua mãe e fã…. mas realmente “mandou bem”.

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