“Gonzaga – De Pai pra Filho”: a emocionante história do Rei do Baião


Quase um mês e meio depois da estreia do filme “Gonzaga – De Pai pra Filho”, no dia 26 de outubro de 2012, ano do centenário de Gonzaga, uma sala de cinema praticamente cheia reflete que a história do rei do baião reverberou com o público.

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O longa do diretor Breno Silveira, que também dirigiu um dos maiores sucessos do cinema brasileiro “Dois Filhos de Francisco”, já ultrapassou a marca de um milhão de espectadores. Ele aborda uma temática similar à de “Dois Filhos”: ambos com origem no nordeste, contam sobre as mazelas do sertão e sobre a delicadeza das relações humanas, principalmente as entre pai e filho, que nesta obra fala sobre como passaram anos brigados.
Mas desta vez, quem conta a história é o filho de Gonzaga, o artista também famoso Gonzaguinha. E o ponto de partida são fitas cassete, com o áudio original, do filho entrevistando o pai. Este momento é crucial tanto na história real  quanto na fictícia. Foi por causa dessas fitas que o diretor se emocionou e decidiu assumir o projeto de outra cinebiografia. E foi a partir daí que, na vida real, pai e filho conseguiram uma reconciliação e partiram para fazer uma turnê pelo Brasil, subindo juntos ao palco pela primeira vez.
Focando a narrativa na descoberta do pai por seu filho, que por muitos anos ficou ressentido com a sua ausência, o filme narra a trajetória de Gonzaga desde seu início no sertão de Pernambuco, em Exu, onde ia com seu pai aos bailes e aprendia a tocar o fole de oito baixos. O pai de Gonzaga, conhecido na região como Mestre Januário, também consertava o instrumento e estas são as primeiras cenas em que começa a se descobrir as relações entre pai e filho no longa. Entre Gonzaga e Januário havia muito respeito e admiração, uma relação forte, de presença, que parece ser diferente da que existe entre Gonzaga e seu filho.
O filme é uma adaptação livre, inspirada em vasto material de arquivo – como as fitas cassetes de Gonzaguinha-, e na biografia “Gonzaguinha e Gonzagão – Uma História Brasileira”, de Regina Echeverria. Diversas das cenas, porém, são muito fiéis a narração do próprio artista em diversas entrevistas e arquivos de vídeo, chegando até a reproduzir algumas falas parecidas no roteiro, como esta da fuga de Exu.
Um dos grandes méritos do filme é ampliar a ideia do grande público  sobre o rei do baião. Uma das pretensões do diretor Breno Silveira era levar o grande mito da música popular brasileira para que o público jovem o redescobrisse. Mesmo com os grandes hinos, como Asa Branca e Xote das meninas, ainda sendo interpretados por artistas atuais, a música e o cantor andavam dissociados para a maioria das pessoas.

Gonzagão e Gonzaguinha

Gonzaguinha e Gonzagão

Isso o filme alcança com sucesso, mostrando Gonzaga para além do baião, e inspirando milhares de novos fãs que entram em contato pela primeira vez com a sua obra. No filme, descobre-se que ele participou de cinco revoluções em sua passagem de nove anos pelo Exército, mas sem disparar um único tiro, como havia prometido a seu pai. Ele vai então ao Rio de Janeiro, com 27 anos, onde começou sua carreira tocando na zona, “ no mangue, na zona brava” da cidade, como ele mesmo descreve, em um vídeo de arquivo da Globo.
Ele alcança a fama, finalmente, quando depois de muitas tentativas frustradas, ele emplaca um som típico do Nordeste, o Vira e Mexe, no programa de calouros radiofônico de Ary Barroso.
Gonzaga é considerado um dos maiores artistas da música brasileira justamente por trazer para os grandes centros urbanos as canções típicas de sua terra, que cantavam suas tristezas e alegrias. Humberto Costa, compositor parceiro de Gonzaga que o ajudou a criar seus maiores sucessos, inclusive Asa Branca, disse que a dupla não inventou o baião, mas ajudou a “urbanizar” o baião.
As imagens do “zona” do Rio de Janeiro dos anos 1940 chegam a ser romantizadas, parecendo um cenário europeu, em que até as putas e os malandros são bem vestidos. A atenuação da pobreza nas ruas e nos morros podem gerar alguns questionamentos. Porém, mesmo com algumas cenas que lembram uma telenovela de época da TV Globo, isto não prejudica a criação de uma narrativa cinematográfica.
A bela fotografia deve-se também pela grande experiência do diretor em outras obras, como em Carlota Joaquina e Eu, Tu, Eles. O longa é uma produção da Conspiração Filmes, da qual Silveira é sócio, com coprodução da Globo Filmes, D+ Filmes, Teleimage e Telecine.
Grande destaque do filme são as atuações dos atores principais, todos eles desconhecidos do público. A busca para encontrá-los durou quase dois anos, segundo o diretor, que insistia em encontrar alguém com uma “alma de sanfoneiro”, como descreveu ao Portal IG. Para Gonzaga em sua fase adulta, Breno Silveira encontrou em Chambinho do Acordeon, um sanfoneiro paulista entre outros 5.000 candidatos, por ele ter o mesmo sorriso e “aquela matutice meio safada que o Gonzaga tinha “, contou em uma entrevista ao diário Bahia Notícias.
O Gonzaga mais velho era um funcionário do museu em homenagem ao artista em sua cidade natal, no Pernambuco. Já Julio Andrade, que interpreta o filho Gonzaguinha, foi mais rápido. Logo no teste veio encarnando o cantor, do qual já era grande fã, e o diretor logo dispensou os outros candidatos, porque acreditou ter encontrado o ator perfeito para o papel.

Cartaz do filme de Breno Silveira

Cartaz do filme de Breno Silveira

Momentos que fazem o público gargalhar, como a cena do ensaio com o “Custo de Vida” e o anão “Salário Mínimo” pelados na beira do rio, ou soluçar de choro, como qualquer um dos momentos de confronto sincero e dolorido entre pai e filho, tornam este filme em uma obra emocionante, mas na medida certa. Não beira ao dramático, ao apelativo. Em certa medida, todos conseguem identificar a dor que existe em uma relação conturbada, porém cheia de amor, e se enternecem pelos personagens.

Bonito mesmo é perceber que existe de fato uma reconciliação por meio da música, esta que é outro deleite ao longo do filme (e que dificulta um pouco acompanhar, sem fazer muito barulho, acompanhando com os pés a cadência do baião).

A produção, que demorou sete anos para ser concluída – cinco deles só para finalizar o roteiro,  de Patrícia Andrade-, teve de deixar de fora muitas das anedotas e histórias de estrada contadas por Gonzaga e por isso, a TV Globo vai passar uma microssérie de quatro episódios a partir de janeiro de 2013, com material novo que teve de ser excluído da obra. Para quem gosta de se emocionar diante das telas, tanto o filme como a série são imperdíveis.

Esta reportagem opinativa foi feita para a disciplina de radiojornalismo do curso de jornalismo da ECA-USP. Veja mais  clicando Aqui

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