Fale com ela – um drama amoral em um ato e meio


(texto escrito quando eu estava no primeiro colegial. Achei recentemente)

Ele era novo na escola e odiava aquela estátua estúpida. Estava perdido, dentro de poucos minutos entraria na segunda série do primário, era tímido, não conhecia ninguém, nem professor, nem aluno, nem tia da cantina para perguntar onde diabos ficava a sala 12 e aquela estátua imbecil (mais tarde aprenderia que o nome correto para aquilo era busto, mas enfim) parecia zombar da cara dele, pois não importava o quanto ele andasse: sempre acabava dando de cara com aquele homem sério inútil.

                Já ia perdendo as esperanças quando ele a viu. Não a sala (na verdade, a sala estava logo atrás, mas ele nem a notou), mas ela. Não sabia dizer se era seu cabelo, sua mochila legal do Pateta (finalmente uma garota que não tinha uma da Barbie!) ou o fato de que ela estava tão concentrada colando figurinhas no seu álbum da Copa do Mundo de 94 (!!!) que nem reparou no menino gordinho que a observava de olhos arregalados, mas ele soube, com a certeza das coisas simples e maravilhosas, que ela era ela.

                Depois do que pareceu uma era, uma hora ou um segundo (ele não sabia dizer), ela olhou para cima, encontrou os olhos verdes ainda arregalados e sorriu (um sorriso não exatamente bonito, dada a falta de alguns dentes de leite, mas que para ele era um conforto maior do que poderia explicar).

                – Oi, eu me chamo Bruna. Você é o aluno novo que veio do Pueri? Gostei da sua mochila.

                E eles se sentaram juntos e conversaram sobre as coisas que crianças conversam. Ele já não consegue mais se lembrar exatamente quais eram seus assuntos, mas eles conversaram até a professora abrir a sala e ele perceber, com o assombro das surpresas que deveriam ter sido antecipadas, que ele nem reparara que outros colegas haviam chegado, mas que eles definitivamente haviam reparado nele, pois, como Bruna já tão sutilmente o havia alertado, ele era “o aluno novo que veio do Pueri”.

                A promessa inicial de sua aparição foi logo desmoronada pelo cruel sistema que define o futuro social de um menino de 8 anos: ele não sabia jogar futebol. Isso rapidamente foi constatado em sua primeira aula de educação física e retificado na aula de matemática, que o condenou a um círculo mais profundo do inferno pueril: ele era bom com os números. Gordinho, perna-de-pau e, ainda por cima, CDF, não lhe restava companhia. Exceto Bruna.

                Apesar de ser o oposto dele em todos os sentidos possíveis (ela jogava futebol melhor do que muito menino), eles se davam bem, o que condenou nosso protagonista a ser visto ainda como maricas, pois estamos falando da segunda série, época em que meninas deveriam ser nojentas para meninos. Mas ele não se preocupava com aquilo que hoje chamaríamos de “bullying”, pois toda vez que estava com Bruna só pensava em como seria se ela soubesse o que ele sente e se ela sentisse o mesmo. Não sabia o que faria se esse momento chegasse (repito: estamos falando da segunda série), mas, só de imaginá-lo, ele se considerava um menino feliz.

                Pois bem, num dia como qualquer outro, Bruna chega para seu amigo e diz:

                – Tô gostando do Carlinhos!

                Carlinhos…! Aquele lixo, idiota, imbecil, estúpido! Seu infantil repertório de xingamentos terminava aí, mas não a raiva que começou a sentir a partir daquele momento. Ah, sempre soube que esse Carlinhos não prestava! Mas como bom amigo, apenas deu risada e disse que ela era nojenta por gostar de um cara que vivia roubando a borracha dela (que é um jeito que meninos menos fofos do que o nosso protagonista têm de mostrar que gostam de uma garota – e é lógico que ele sabia disso, por isso o odiava mais ainda).

                Ela apenas sorriu (os dentes permanentes já emergindo) e foi brincar de pega-pega (não antes de pedir para ele não contar a ninguém seu segredo, ah!, a crueldade do amor infantil!). Ele queria dizer tudo o que deveria ter falado desde o dia da estátua, mas simplesmente a seguiu para o pega-pega (só para estar com ela, na verdade, lembrem-se de que ele era um fracasso fora do mundo dos números).

**

Com os olhos vermelhos, ela lhe conta que terminou o namoro de quatro anos. Por mais que doesse a ver chorando, por dentro seu intestino estava dançando conga.

                – Bom, pelo menos agora teremos tempo para jogar War como antigamente, lembra?

                Ela riu (meu Deus, como ela fica linda sorrindo assim e com o nariz vermelho de choro ao mesmo tempo). E nessa hora ele queria contar tudo. Da estátua, das Copas passadas, de balões, de tudo. Dizer que sem ela não dava mais, que ela era tudo.

                A coragem se esconde por trás das florestas de seus verdes olhos, e, meses depois, ela encontra seu príncipe encantado. Estudante de medicina (faculdade particular, mas vá lá, ninguém é tão perfeito assim), corpo que faria os adolescentes gostosinhos do Crepúsculo terem baixa auto-estima, gostava de jazz, vinho, francês e queria ser cardiologista, o que ele rendia um repertório “super fofo” de cantadas envolvendo coração (com licença, nosso protagonista vomitou ao lembrar disso. Agora voltemos à história).

                Enfim, um verdadeiro “gentleman”. Já o nosso amigo? Pobrezinho. Perdera os quilos a mais da puberdade, verdade seja dita, mas não gosta de poesia (só das que a Bruna lhe recomenda), não sabe trocar pneu (muito menos abrir um coração), tem unha encravada, não fala bem em público e a única coisa que sabe de vinhos é que alguns têm bolhinhas. Pois bem, nunca seria considerado um bom partido.

                Percebeu, com a certeza das coisas simples e cruéis, que talvez não seria tão feliz quanto uma vez imaginara há muitos anos. Ou talvez seria. Teriam três filhos com nomes ou de poetas ou de cientistas famosos (talvez ambos – nomes compostos estão de volta à moda) e um cachorro grande, desajeitado e bobão (isso para quando ainda fossem jovens, mas depois um pequeno, peludo e barulhento para lhes fazer companhia na velhice, quando aproveitariam a aposentadoria nas montanhas). Morreriam dormindo juntos, sonhando que as únicas coisas que mudariam na vida eram o começo do namoro (que deveria ter sido em 1994 e não após o rompimento de Bruna com o lixo, imbecil, idiota e estúpido cardiologista) e o nome do filho caçula (afinal, Pablo Albert lhe rendera tantas chacotas na escola quanto a falta de talento do pai no futebol).

                E ele queria ter lhe dito tudo isso e muito mais, pois vendo-a assim nunca teve tanta certeza que ela era a mãe de seus filhos, como sempre soube desde 1994 (não a pensava assim, “mãe de seus filhos”, até porque na época ele não entendia como alguém que não sua mãe poderia ser mãe, mas vocês entenderam).

                Mas a vida tem dessas coisas, não há nada que eu possa fazer a respeito e o nosso protagonista se casou, teve dois filhos (sem cachorro por causa da alergia do primogênito) e se contentou em chamar o papagaio de Newton. Morreu sem lembrar do que conversaram naquele dia da estátua, mas soube o que era amor e morreu feliz.

                E Bruna? Bom, nosso amigo pouco sabia de Bruna, ex-mulher de cardiologista famoso. Lembrava somente dela. Ela.

2 Respostas para “Fale com ela – um drama amoral em um ato e meio

  1. Filumena 3 de novembro de 2011 às 20:49

    Adorei! Fiquei com dó…

  2. Jéssika G. Morandi 19 de setembro de 2011 às 16:32

    Que linda história Vic! Que criatividade, e bem escrita, prende a gente! Apesar de toda sua beleza assim como está, dá vontade de ler mais! Afinal, quem é que não se identifica com algo registrado aí, hein? ;)
    Beijos!

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