O que incomoda tanto?


Cem homens em um ano

É o número?  O fato de ela ser mulher? É o sexo? Por que Letícia Fernandez, pseudônimo de uma jornalista que registra suas experiências sexuais no blog  “Cem Homens”, incomoda tanto?

A ideia de escrever sobre seus encontros surgiu de uma brincadeira, segundo a própria Letícia, que no início do ano decidiu que queria “fazer muito sexo”. A jornalista de 30 anos estabeleceu para si a meta de transar com cem homens em um ano e registrar os acontecimentos no site. Começou hospedando o endereço no portal da revista Nova, com o nome “Cem homens em um ano”, onde se tornou popular e polêmico. Quando a repercussão do site cresceu e evoluiu para proporções não imaginadas pela jornalista, o blog foi desvinculado da Nova e ela migrou para o outro URL, sob o nome de “Cem Homens”.

Tornou-se conhecida por sua iniciativa ousada e foi entrevistada por publicações como a Época e a Playboy. “Sempre fiz sexo casual, isto não é uma novidade para mim”, disse a blogueira. Ela conta que, quando ainda estava com a Nova, muitas mulheres escreviam para ela dizendo que se identificavam com algumas situações narradas nos posts ou mesmo para demonstrar apoio ou admiração por sua extroversão ao falar de um tema tabu.

Porém,  junto com a “fama” veio também a “intolerância” das pessoas. Quando se cogitou que ela poderia ser nordestina (na reportagem da Época o jornalista escreveu que ela tinha um forte sotaque nordestino, mas ela não revela sua origem), comentários preconceituosos e maliciosos inundaram a caixa de emails de Letícia com coisas do tipo: “Se amarra em um pau de jegue e volta pro nordeste”  e daí para baixo.  

Letícia narra seus encontros sexuais desde fevereiro.

Ciente de que nem todos teriam “cabeça aberta” para enfrentar uma mulher bem resolvida sexualmente,  ela resolveu responder de forma bem humorada (quase sempre) aos comentários machistas em seu tumblr “Cem homens sem noção”. Em muitos outros sites, como o “Homens Honrados”, o nível dos comentários beira ao “troglodismo”:

“Que essa mulher é um lixo humano, disso ninguém aqui tem dúvidas.
Esse é o sonho de toda modernete, sem exceções. As que não fazem é por medo de queimar o filme perante a sociedade.
Quem vê pensa que mulher gosta de sexo depois dessa…
Essa vagabunda só ta usando isso pra se aparecer, tanto é que ja conseguiu até uma entrevista na playboy.
Certamente já está com o corpo acabado, se não já estaria se prostituindo.”

Porém, a quantidade e o nível dos comentários foram piorando, principalmente depois da “entrevista fake” da Rádio Globo. Ouça o áudio aqui.

Na quarta-feira da semana passada (31), a Rádio Globo veiculou uma suposta entrevista com Letícia no “Programa do Antônio Carlos”. No programa, a Letícia fake era  uma jornalista baiana (ela nunca disse de onde era) que “ quer transar com cem homens, bater o recorde, e se tornar a nova ‘bruna surfistinha’”. Do início ao fim, a entrevista é revestida de preconceito  ácido e malicioso, com comentários do tipo “ Você cobra para transar com os caras?”, “é a nova ‘bruna surfistinha’” ou “tem louco para tudo”.  Antonio Carlos ainda pergunta se “está tudo em cima?” insinuando que apenas uma mulher “feia” faria alguma coisa do tipo para poder fazer sexo.  A Letícia Fake responde a tudo bem humorada, com uma voz lenta e carregada de sotaque, como se não percebesse os insultos indiretos dos apresentadores.

A entrevista evidentemente era falsa, como foi comprovado por um comunicado da rádio, que afirmou ter entrado em contato com uma emissora nordestina e conseguiu o telefone da suposta assessora de Letícia (blogueiro tem assessor?), que organizou a entrevista ao vivo. Eles se retrataram pelo ocorrido e ofereceram um espaço na rádio para Letícia se pronunciar, como um direito de resposta. Ela recusou, pois não queria continuar a dar munição para a “chacota” alheia.

Dentro de toda a confusão, que já é bizarra por si só, uma coisa ainda mais bizarra me fez refletir sobre o assunto. O que leva as pessoas a reagirem de tal forma a uma mulher que simplesmente quer escrever sobre sexo em um blog? Será que seria a mesma repercussão se ela fosse uma sexóloga falando de experiências alheias? Por que este tipo de hostilidade, em tempos de personagens como Carrie Bradshaw e Samantha Jones, ambas do seriado “Sex and the City”, que são “símbolos” da liberdade sexual desta geração. Uma escreve em uma coluna sobre sexo e a outra é uma poderosa executiva que adora, e consegue, fazer muito sexo com vários caras.

Carrie Bradshw e Samantha Jones, personagens de Sex and the City, falam abertamente sobre sexo e prazer

Fiquei chocada com algumas opiniões, tanto de jovens na faixa dos vinte anos, quanto pessoas mais velhas que se dizem de “cabeça aberta”. Coisas como, “por que ela precisa divulgar pra todo mundo?”,  “ela só quer aparecer”, “que vagabunda!”. Esta não é a primeira vez que alguém resolve relatar experiências sexuais de maneira casual em um site. Logo que soube deste blog, lembrei-me do  “Manual do Cafajeste para Mulheres”, que por muitas vezes foi também acusado de machista por classificar mulheres como “lanche”.

Ora,  qual o problema de ela expor isto em um blog? A liberdade de expressão está justamente baseada neste direito, que inclusive não fere a ninguém.  Não chegam nem perto, aliás, de comentários de Bolsonaros da vida, estes sim que infelizmente são socializados e não acrescentam em nada ao debate.  O fato de ela transar com vários caras, ter prazer, não exercer o papel definido para uma mulher dentro da sociedade é chocante para a maioria, tanto para homens quanto mulheres, que não entendem as razões que levam a uma mulher a expor suas experiências sexuais para o mundo. Muitos com certeza não teriam esta vontade, ou mesmo coragem, mas isto não justifica um “linchamento moral” de quem quer que seja, independente se isto é algo que você faria ou não.

Quando Letícia criou o blog, ela sabia que seria algo polêmico, mas não imaginou que daria vazão ao preconceito machista e agressivo das pessoas. “Falam que por eu escrever um blog sobre sexo, eu dei minha cara para bater. Coloquei minha cara, mas não pra bater”, disse. Uma vez que ela se expõe em um espaço público, como é a internet, as pessoas acreditaram que ela deveria ‘”agüentar o tranco”, mesmo perante comentários absurdamente machistas e cruéis  como: “só uma mocreia se porta como vc se porta morra de aids vadia”

Este tipo de reação apenas reforça um duplo discurso da sociedade, que não se demora a  apoiar as liberdades individuais e pragueja a “censura”, mas sempre relativizando sua aplicação.

Mostra também que sexo ainda não é um tema bem resolvido, muito menos no campo feminino. “Qualquer mulher que tenha desejo sexual, necessariamente, tem que ser prostituta? Não, mulheres gostam sexo. Nem que seja um homem, para transar 365 dias por ano com o mesmo cara”, comentou Letícia, indignada, ressaltando como “o machismo é arraigado na sociedade”.

O mais chocante,  depois de toda a repercussão do blog, foi ler, neste fim de semana, o comunicado na página inicial em que a jornalista afirma ter se desgastado tanto com os comentários que decidiu se afastar por  algum tempo. Ela promete um novo layout para o site e voltar a escrever quando recobrar as energias. Mas ainda sim, fica a pergunta, por que ela incomoda tanto?

Obs- Entrevistei a Letícia Fernández, por telefone, no dia 2/09, para o Portal IMPRENSA. As aspas foram retiradas desta conversa, que também podem ser vistas aqui.

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