Neutralidade não existe, mas…


               Já quero dar os créditos do título a Matheus Pichonelli, cujo título “Nada contra, mas…”  resume bem o espírito de seu ótimo texto sobre a homofobia maquiada e travestida do discurso politicamente correto.

                Após ir a um bate-papo com um manda-chuva do jornalismo, refleti sobre a tal “neutralidade jornalística”. A necessidade de escrever sobre isso se fez mais evidente após as Organizações Globo terem publicado as linhas editoriais que a regem.  O intuito do texto e o objetivo das minhas ponderações não é demonizar a Globo: isso é reduzir a questão e superficializar o debate (que se faz urgente como tentativa de contrapor o senso comum do jornalismo como atividade neutra).

                Por mais experiência e anos de jornalismo que uma pessoa ou uma empresa tenham, acho incrível como a “neutralidade” não sai da boca dos profissionais da área. O engraçado é que, muitas vezes, o entrevistado ou palestrante inicia afirmando que neutralidade não existe. Quando você acha que a fala acabou, ele solta um “mas” e, então, o debate começa.

                Na última quarta-feira, durante o bate-papo com Clóvis Rossi, foi exatamente assim. Uma mulher, presente no encontro promovido pela Folha, levantou a mão e perguntou ao atual colunista (ex-correspondente da Folha e ex-editor chefe do Estadão) o que ele achava de uma atuação do governo sobre os meios de comunicação – pergunta que, para mim, evocou a polêmica sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, proposto durante o governo Lula. Sem mencionar o PNDH-3, Rossi se opôs ao que chamou “censura” e disse que cada pessoa (leitor, espectador, ouvinte ou internauta) tem discernimento para saber o que é melhor para si. Além de considerar “elitista” a postura de decidir o que as pessoas devem ler, ver e ouvir. Algumas perguntas depois, quando o assunto era outro, levantei a mão e ressuscitei a questão, dizendo que, para mim, o foco principal do Plano não era o controle do conteúdo divulgado, mas sim a discutir a concentração da posse dos meios de comunicação no Brasil. E questionei como avaliar o papo do elitismo num país onde a educação é um problema crônico, onde a concentração de mídia é um fato gritante, onde em cidades como Socorro (interior SP) não há infra-estrutura cultural que dê muitas opções além da TV nas horas vagas e um país onde a TV aberta, meio de comunicação mais popular do Brasil, é de qualidade altamente duvidosa. Foi interessante ver a polêmica gerada.

                A questão não é decidir o que as pessoas devem ler, ver e ouvir para atingirem um nível intelectual superior. Mas (olha ele aí de novo) garantir uma pluralidade (outra palavra top 5 do jargão jornalístico) mínima de conteúdo. Ao levantar a mão, disse que a meu ver a “grande mídia” havia demonizado o PNDH-3, taxando-o de censura e bloqueando um debate mínimo sobre a concentração dos meios de comunicação no país. Poucos foram as publicações que analisaram o Plano, contextualizando-a no cenário  de concentração visto no Brasil hoje.

               A cobertura da grande mídia ao PNDH-3 quebra o princípio das Organizações Globo de queNão pode haver assuntos tabus. Tudo aquilo que for de interesse público, tudo aquilo que for notícia, deve ser publicado, analisado, discutido; . Não me lembro de nenhum meio de comunicação mostrar trechos escritos do Plano: houve espaço somente para a sua interpretação (e demonização).  Pior do que uma posição elitista, a grande mídia se portou como os padres católicos da Idade Média que liam e interpretavam a bíblia para os fiéis. E pensar que o PNDH-3 nem precisou ser escrito em latim para que essas empresas agissem como as “interpretantes da verdade”. Eis que pergunto agora:  será preciso um Martin Lutero do século XXI para traduzir a subjetividade (ainda que mínima) presente em todo e qualquer meio de comunicação?


                E qual relação disso com a tal “neutralidade”? Garantindo uma maior (e mínima) pluralidade na TV aberta, no rádio e nos jornais, pode-se ler um fato sob diversos aspectos e, assim, construir uma visão mais completa sobre ele (ou, como chamariam alguns manda-chuvas da área, “chegar mais perto da verdade do fato” ). Eu parto do princípio de que a neutralidade não existe e… ponto final (sem “mas”). Voltando ao clichê de que um jornalista é uma pessoa, constituído por passado e opiniões, é impossível uma matéria não possuir construções subjetivas. Uma notícia é uma construção, não um fato, envolvendo etapas, profissionais, edições.

                Admitir que uma matéria e o jornalismo nunca são imparciais não implica deixar de ouvir diferentes lados de um fato, omitir dados e até criar alguns a fim de defender e comprovar uma tese. Isso não é jornalismo (ético). Riscar o termo “neutralidade” do jargão jornalístico é admitir e reconhecer que um fato pode ser lido de maneiras bem diferentes dependendo da matéria que se noticia (e do meio que a publica). Citando um exemplo recente: o episódio ocorrido ontem no Brás (centro de SP) entre policiais e comerciantes.

                Trata-se se um confronto entre os dois grupos, um massacre dos policiais sobre os manifestantes ou uma baderna de camelôs?  Cada uma dessas frases poderia ser uma manchete, dependendo da publicação que noticiasse o acontecimento. O viés de uma matéria, antes de se fazer presente na manchete, já começa na elaboração da notícia, na seleção das fontes, de imagens e das aspas a serem publicadas. Nem vou me estender sobre a não-pluralidade de fontes praticada no jornalismo hoje. Apenas ponho o link de um texto de Luís Nassif, comentando o texto “Disk Fontes”, publicado por Leonardo Sakamoto. Você, caro leitor, vem sofrendo crises existenciais? Disk Demétrio Magnoli. De geografia, sociologia, invasões do MST e o conceito de raça: o professor da FFLCH é pau pra toda obra, fonte pra toda matéria e todo debate.

                Podemos falar ainda na subjetividade das empresas jornalísticas. Alguma vez antes da exibição de uma matéria sobre uma “invasão dos baderneiros comunistas do MST”, o apresentador de um jornal da emissora contou que a Globo Comunicação e Participações S.A. integra a Associação brasileira de Agronegócio (ABAG)? Não sei como funcionam, no exterior, as parcerias de empresas de comunicação, mas acho que a Globo (e todas as empresas que têm parcerias econômicas) poderiam esclarecer isso a seus ouvintes, leitores e telespectadores. Me pergunto: será que algumas pessoas leriam uma “invasão do MST” da mesma maneira depois que William Bonner fizesse um adendo sobre a ABAG antes / depois da matéria?

                Durante as eleições do ano passado, alguns criticaram o Estado de S. Paulo pelo editorial em que declarava apoiar o candidato José Serra. Ok, alguns não precisaram do editorial para perceber que lado o Estadão preferia. A crítica que eu faço não é ao editorial, mas ao atraso com que foi publicado (a uma semana do segundo turno). Lembro de ter lido a carta de um leitor que criticava o Estadão pelo fato dele apoiar um candidato e se perguntava sobre a veracidade das publicações do jornal. Pareceu-me que aquele leitor (e eleitor) se sentiu “enganado“.

              Ainda que Rossi, com toda a sua experiência, afirma que “achar que a Folha de S. Paulo influencia o eleitorado com 300 mil exemplares diários é coisa de quem não sabe aritmética”, cabe lembrar que jornais como Folha, Estado, Globo e Zero Hora influenciam outras publicações, em escala nacional. Isso, quando essas empresas não são donas de publicações em outros estados. Fora a repercussão que suas matérias têm na Internet. Saindo de um panorama eleitoral (inegavelmente decisivo para os rumos políticos de um país), o jornalismo se faz presente diariamente, construindo, influenciando e fundamentando a construção de fatos, visões e opiniões. Repito a pergunta: será que leitores/ espectadores / ouvintes conceberiam uma notícia da mesma maneira caso o meio que a publica esclarecesse as parcerias econômicas e as linhas editoriais que adota?

              A neutralidade jornalística é um dos maiores tabus relacionados à profissão. Quebrar esse mito é, antes de um dever, uma necessidade. Reconhecer o jornalista como uma pessoa repleta de paixões e incertezas, impede que o jornalista e a sociedade o vejam como o dono da verdade. Se existe alguém que não sabe de tudo, esse alguém é o jornalista, cujo um dos deveres fundamentais é perguntar e consultar fontes capazes de analisar o assunto mais aprofundadamente. Risquemos “neutralidade” de manuais de redação e do nosso jargão profissional. Sejamos honestos com nossos leitores, ouvintes, telespectadores. E com nós mesmos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: