A Bolha


Para Meu Copo de Café

Não tivesse morrido em 1956, poderia-se facilmente confundir Bertold Brecht como autor da peça Este Lado Para Cima – Isto Não É Um Espetáculo, da Brava Companhia. A comparação é inevitável e flagrante.

Foto: Divulgação FIT-Rio Preto

O épico conta a história da formação de uma cidade qualquer desde o seu começo, com a desapropriação de ninguém pelo progresso. Aos olhos do público, espalhado pela rua, vão se desenrolando cenas cheias de críticas ácidas à sociedade espetáculo-consumista – e aí o sub-título da peça ganha uma força irônica tremenda.

Brechtianamente, a Brava Companhia ensina à plateia o processo de produção de um banco desde a extração do ferro até sua venda. Durante a aula, vão se desnudando as relações entre exploração de mão de obra barata, condições de trabalho, propaganda de projetos sociais do Banco e lucro. E tudo, de tempos em tempos, sendo devidamente frisado como encenação – tal qual o alemão.

Foto: Divulgação FIT-Rio Preto

Apegando-se a estereótipos e trocando a batida pirâmide social pela Bolha flutuante (os poderosos lá em cima e os trabalhadores embaixo), o grupo vai pondo às claras as entrelinhas dos discursos circulantes. Assim eles ensinam como o nós de quem está na Bolha é diferente do nós de quem fica no chão. Assim eles revelam as raízes da desmobilização atual. Assim eles mostram como a mídia transforma aquele que fura a bolha em terrorista.

O texto, a dramaturgia e o tema desta nova peça da Brava Companhia são potentes – não é de surpreender, A Brava já mostrava que o grupo tinha potencial. Assim, ao lado da Cia. São Jorge de Variedades, do Grupo Clariô de Teatro e de tantos outros grupos, a cena de teatro político paulistano vai se fortalecendo.

***

A seguir, o poema Quando os Trabalhadores Perderem a Paciência, de Mauro Iasi, professor da UFRJ e membro do Comitê Central do PCB (Partido Comunista Brasileiro):

Quando os Trabalhadores Perderem a Paciência
As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!

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2 Respostas para “A Bolha

  1. Jéssika G. Morandi 27 de julho de 2011 às 13:35

    Uau Paulo, deve ter sido animaaaal essa peça! Lendo seu post, que vontade de assistí-la! Foi no Festival de Rio Preto? E que belo e rico post! Parabéns! À la Nana, só que invertido, vou elogiar muito no Twitter! ;)

    Beeijos!

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