Cartão e universitários: essa conta fecha?


Alessandra Alves
Paulo Fávari

“Quando você usa o cartão de crédito para compras pequenas, você sempre acha que gastou menos do que realmente gastou. É preciso ter um controle de tudo, porque  há coisas que você esquece e apesar de preferir usar o cartão só em casos de emergência, já paguei quantia  mínima e parcelei a fatura. Quando eu não tenho dinheiro e preciso comprar alguma coisa, eu passo no crédito. Porém, atualmente meu cartão está bloqueado por falta de pagamento”. Casos como o de Rafael Almeida, estudante do Senac de 22 anos, não são raros. Os universitários são considerados um grupo de risco entre os usuários de cartões de crédito.

Essas são as conclusões da pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas e publicada em maio deste ano. Segundo ela, 70% dos 769 jovens consultados desconhecem as taxas de juros cobradas nos cartões de crédito e 26,3% deles possuem três ou mais cartões. Além disso, ter débitos acima ou igual a R$ 1 mil, atrasar o pagamento do cartão e não pagar o total da fatura ou usar todo o limite estabelecido para o cartão são outros comportamentos considerados arriscados.

Mônica Fogaça, analista de negócios da área de cartões, afirma que há diferenças entre a abertura de conta corrente e a aquisição de cartão de crédito por universitários. Enquanto na primeira o banco exige um responsável pelas contas, para o cartão de crédito é necessário apenas que ele tenha uma conta corrente. “No crédito, o universitário é o responsável por gerenciar seus gastos”, explica.

Segundo ela, o cartão de crédito para universitários não apresenta grandes diferenças em relação ao cartões de crédito convencionais. As taxas e as tarifas cobradas e os rotativos são os mesmos, sendo que, para esse público, é oferecida uma “cesta de serviços” diferenciada: descontos para entradas de cinema e de shows, além de passaportes de parques de diversão. Além da cesta, outra vantagem desse tipo de cartão é a anuidade gratuita no primeiro ano de uso. Assim, os cartões universitários são uma estratégia de marketing. “O nosso objetivo maior é trazer esse público para o mundo financeiro e fidelizar clientes”, explica Mônica.

Na opinião da analista, o cartão de crédito é mais versátil e abrangente do que o crédito universitário: “Com cartão, você pode comprar de tudo. Já o crédito é um dinheiro antecipado, com uso mais direcionado para assuntos da faculdade”, diz. Renan Luciano Regonato, estudante do 5º ano de Ciência da Computação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no entanto, vê o cartão de crédito com ceticismo: “tenho conta corrente e uso muito mais débito porque credito é ilusão”. Carlos Augusto Toledo, colega de turma de Regonato, tem a mesma visão: “não gosto de gastar um dinheiro ‘que não tenho’. Prefiro primeiro gastar o dinheiro da minha conta pra depois, se for necessário, usar o crédito e jogar as contas para o outro mês”, conta Carlos. Ana Lúcia de Souza, estudante de Engenharia Industrial Química na  USP de Lorena, alerta outro risco do cartão de crédito: pagar a fatura mínima. Apesar de usar crédito para quase todas as compras que faz, Ana afirma nunca ter pagado fatura mínima: “Os juros são altíssimos. Não compensa”, justifica.

Múltiplos cartões

Para Mônica Fogaça, o fato de jovens possuírem mais de um cartão de crédito é justificado pela busca de serviços diversificados, que variam de uma bandeira para outra. Ela afirma que o banco não pesquisa em que áreas esses  jovens utilizam mais o cartão de crédito.

Em enquete realizada pela reportagem, respondida por 61 universitários de diversas faculdades, os maiores gastos são feitos com vestuário, cultura (cinema, teatro, museu, cds, dvds) e alimentação. Shows aparecem apenas em quarto lugar e festas em sétimo – de um total de 11 opções. Transporte público figura o último lugar em gastos com cartão de crédito entre esses estudantes.

Catherine Faraguti Pereira, estudante de Arquitetura e Urbanismo pela Belas Artes usa o seu cartão em “casos de emergência ou quando compro algo de um valor mais alto e preciso dividir”, conta. Maytê Prado, também estudante de Arquitetura, mas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), tem o mesmo comportamento de Pereira “uso somente quando necessário, pra valores altos e quando não tenho a quantia no momento. Normalmente só uso pra abastecer o carro”. Já Cristiane Hong, estudante de Relações Públicas da Universidade de São Paulo (USP) usa o cartão para “comprar roupas, pagar refeições, fazer compras em sites internacionais e nacionais”. Todas, no entanto, dizem controlar bem seus gastos.

Para o banco, vale a pena investir nesse público, pois ele movimenta bastante dinheiro: “apesar de ser um grupo de risco, ele amadurece e aprende a lidar com os gastos por si só”, afirma Fogaça. Segundo ela, caso um universitário estoure o limite do cartão, ele é cobrado do mesmo modo que o restante dos clientes, sem diminuição de taxas ou prolongamento do prazo para pagar.

 

Experiência financeira

No início da vida financeira do estudante o controle vem dos pais, que têm mais experiência nesta área. É o caso de Jimena Diamint, que cursa o 1º ano de Relações Públicas na USP, “ah, meu pai sempre fica me controlando. Se eu gastei 200 reais ele quer saber em quê mas nunca me deu bronca porque nunca extrapolei nada!”, conta.

A enquete, revelou um equilíbrio nesta área: 30% dos estudantes que responderam têm como fonte de renda para saldar a dívida do cartão apenas os pais; 43%, apenas seus salários e 28% sustentam seus cartões de forma mista, em parte com renda própria, em parte com remessa dos pais, como Bruno Eustáquio. Rocky, como prefere ser chamado, está no 4º ano de Ciência da Computação na UFSCar e define de onde tira seu dinheiro: “por prioridade, dos meus pais e de trabalhos informais que eu faço quando tenho gastos de última hora quando a água bate na bunda”.

Fogaça conclui, afirmando que aulas de educação financeira, tanto em escolas como em faculdade, é importante. “Os jovens sairiam com outra cabeça. Hoje, isso é uma grande carência que nós temos. Em outros países, como o Japão, eles começam a ter noções de mercado financeiro desde pequenos”, diz Mônica.

PESQUISADOR ANALISA A SITUAÇÃO DE UNIVERSTÁRIOS

Fomos à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP para saber a opinião de Francisco Barbosa, doutorando pela FEA e pesquisador pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) sobre o uso do cartão de crédito pelos universitários. Além disso, Barbosa também deu orientações de como utilizar melhor o cartão.

Para Barbosa, os jovens não são os únicos a terem problemas com cartões de crédito: “isso acontece com todo mundo. O problema é usar o cartão como uma fonte de renda. Você tem um limite de 4 ou 5 mil reais, mas não possui essa renda e acaba caindo no ciclo vicioso de pagar os juros da dívida”, explica ele.

O pesquisador avalia os jovens universitários como um público com alto potencial de consumo, o que justifica o investimento dos bancos para criar cartões e contas voltadas a esse nicho. “O intuito é fidelizá-los enquanto clientes. Eu, por exemplo, sou cliente do mesmo banco desde que entrei na USP, em 1995. Me acostumei”, conta Francisco. Na enquete elaborada pela reportagem, 56% dos entrevistados usam parcial ou totalmente o dinheiro dos pais para pagar a fatura, mas somente 50% dos alunos afirmaram planejar previamente os gastos. “Parece que os pais não estão ajudando muito no controle de gastos”, analisa o pesquisador.

Apesar de existir cartão de débito ou crédito universitário, ele acha o cartão de crédito mais vantajoso não só por sua praticidade, mas principalmente pelo status que confere ao portador. Segundo ele, as propagandas mostram o cartão capaz de conferir poder e liberdade e essa carga emocional das propagandas é muito forte, principalmente sobre os jovens. Contudo, ele acha que o problema não é os jovens terem cartões, mas saber os jovens não devem abandonar os cartões, mas sim saber como utilizá-los: “é preciso limitar o crédito a um quarto da renda. Assim, você garante dinheiro para pagar a fatura no fim do mês”.

Segundo o pesquisador, é preciso resistir à tentação, pois as empresas oferecem créditos altos a fim de conseguir clientes endividados: “elas ganham com os que atrasam a fatura, não com os clientes que pagam as contas em dia”. O pesquisador fala dos “atrasados pontuais” – os clientes que sempre pagam a fatura completa com alguns dias de atraso. Em caso de endividamento, ele considera melhor pedir um empréstimo (com taxa de juros em torno de 3%) a recorrer ao cheque especial, cujos juros chegam a 12%.

Aulas de educação financeira e propagandas estimulando um uso consciente de cartões seriam medidas para diminuir a taxa de inadimplência entre os jovens. Segundo ele, o impacto seria maior se houvesse aulas no colegial, não só na faculdade. “Nos EUA, por exemplo, existem aulas de educação doméstica para os alunos dessa idade”, diz ele. Francisco afirma, contudo, que essa conscientização é um processo demorado, pois o modelo de como usar o dinheiro vem primeiramente da família e, muitas vezes, os jovens apenas copiam os hábitos de seus pais.

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