Silêncio na Cidade Universitária


Aquele seria um dia como qualquer outro. Por volta das 22 horas, Tony aguardava a filha sair da faculdade. Ela acabou de fazer 18 anos e está cursando o primeiro ano de administração da FEA (USP). Porém, havia algo diferente. Luzes vermelhas piscavam, iluminando o estacionamento da FEA. Cordões isolavam uma área já tomada por carros policiais. Seguranças terceirizados e integrantes da Guarda Universitária circulavam pelo local. Alguns minutos depois, policiais militares chegam. Tony, assustado e inconformado, pedia mais segurança na Cidade Universitária. ”Quando vi isso, pensei na minha filha”, conta ele.

Ao me aproximar dos cordões de isolamento, senti o peso do silêncio. Aos poucos, alunos saíam da aula e, temerosos, se aproximavam do local. O que aconteceu? Que horas foi isso? Já sabe quem é? Foram algumas das perguntas feitas por quem chegava ali, ainda que assustado com a vermelhidão das luzes e a dureza da cena.

Um grupo de alunos que saía da aula olha o local isolado. Queriam saber quem seria a vítima. Ao ouvir o nome de Felipe Ramos de Paiva, aluno do 4º ano do curso de Ciências Atuariais, um deles ergue as sobrancelhas. Você o conhecia, pergunto. “Ele era da minha sala”, diz o rapaz. Pergunto se eles acabaram de sair da aula e, se sim, por que eles saíram na frente de Felipe. Os meninos contam que faziam algumas matérias com Felipe. Dois deles tentam lembrar quais matérias são essas e de qual aula Felipe teria saído antes de ser abordado enquanto entrava no Passat preto que havia deixado no estacionamento da faculdade. Um dos meninos conta que, por volta das 21h40, começaram os rumores dentro da FEA de que algo estranho havia acontecido no estacionamento. Na sala dele, a professora pediu para os alunos permanecerem na sala. “Não houve mais clima para a aula”, conta ele. Depois de um tempo, a professora decidiu liberar os alunos.

Então, um menino alto se aproxima do grupo. Assustado, pergunta: “É verdade que é o Felipe?”. Os meninos confirmam com a cabeça e baixam o olhar. Incrédulo, o rapaz abre a boca e fica sem reação. Um dos rapazes do grupo, estudante de contabilidade que não conhecia Felipe, disse: “Depois tem gente que faz protesto e reclama sobre a PM no campus. Tem que botar PM, câmera, catraca. A Cidade Universitária é terra de ninguém, qualquer um entra e sai daqui. Não perguntam qual o preço de uma vida? Então.. fala isso para a mãe dele”. Pergunto se ele acredita que câmeras e catracas o resolveriam o problema. “Na Av. Paulista tem catraca e segurança. Diminui o problema”, responde ele.

Apesar da confirmação do nome, o clima do local é de muita incerteza. À medida que o tempo passa, mais alunos se aproximam e perguntam o que aconteceu, se havia alguém machucado, e quem ele seria. Ronaldo Lessa, chefe da Guarda Universitária prefere não dar depoimentos aos jornalistas presentes – desde os alunos responsáveis pelo Jornal do Campus até repórteres de emissores televisivas como o SBT e a Rede Globo. Guardas terceirizados diziam não saber muitos detalhes: diziam ser necessário aguardar a perícia chegar e avaliar o local. Naquele momento, o corpo ainda se encontrava no carro. Segundo um guarda terceirizado que estava no local, um segurança que estava no estacionamento ouviu um barulho de tiro e foi verificar. “O assaltante não fora preso”, ele diz, indignado.

Um aluno recebe autorização dos policiais para retirar o seu carro, que estava estacionado na área isolada pela polícia. Outro aluno que também havia estacionado o carro próximo ao Passat de Felipe, porém, deverá aguardar mais para retirar o carro do local. Em meio ao silencio perturbador da cena, surge um rapaz: de blusa branca, cabelos enrolados e usando óculos, o rapaz ultrapassa os cordões de isolamento e entra na área protegida. Imediatamente, policiais vão até ele e impedem-no de continuar. O menino conversa com os policiais e põe as mãos na cabeça, olha para baixo. Após a conversa, ele e os policiais se encaminham para o carro de Felipe. O rapaz pára e olha para baixo. Depois, sai da área de isolamento e comenta com um colega que os policiais chamaram-no para fazer um reconhecimento do corpo. Ele confirma que conhece a vítima.

Ao ser abordado por duas jornalistas, o rapaz se irrita e diz não querer dar entrevistas nem gravar nada. Ao sair da área isolada, cobriu o rosto contra a câmera de uma emissora. Ele reclama da falta de respeito de jornalistas que ali estavam. Em seguida, ele começa a conversar com um colega de sala. Estava transtornado, visivelmente assustado: ao falar com ele, reparo que seu lábio tremia levemente. Os alunos do 3º ano de jornalismo da ECA responsáveis pelo Jornal do Campus tentavam conversar com policiais na busca por mais informações. Conversaram com colegas de Felipe e alguns alunos que se aproximavam do local. Um aluno da FEA que acabava de sair da aula olha para a área isolada por policias e conta que o carro estacionado ao lado do Passat preto de Felipe é de um amigo seu.

No ponto de ônibus do outro lado da rua, alunos comentavam o ocorrido. “Poderia ter sido um de nós”, diz um menino ao colega. “Imagina se eu resolvo sair mais cedo da aula e passo por aqui na hora do assalto? Poderia ter levado um tiro também”. “Que USP horrorosa é essa?” foi a pergunta por uma menina que estava nas proximidades do crime.

Em meio ao choque, nascem perguntas. Como isso ocorreu? O que fazer para evitar que episódios assim se repitam? Qual será a resposta da sociedade para isso? Se há algum “culpado” numa tragédia como essa (o de um jovem de apenas 24 anos perder a vida após receber um tiro na cabeça), quem seria? A violência na USP? A estrutura de segurança da USP?

Não é de hoje que muitos reclamam que a segurança na USP é falha. Qualquer pessoa pode entrar e transitar pela Cidade Universitária até as 20 horas. Após esse horário, o livre acesso se dá apenas pelo portão principal (perto da Av. Vital Brasil). Nas outras portarias, é preciso apresentar a carteirinha USP aos guardas. Guardas particulares são vistos em cada uma das faculdades lá dentro e a Guarda Universitária é responsável pela segurança do campus.

Câmeras, catracas, mais fiscalização de quem entra e sai da Cidade Universitária. A solução? Por mais que o choque e a comoção nos façam exigir uma atitude rápida para evitar a perda de outra vida, será que o que ocorre na USP não é uma reflexão do que se vive no mundo externo aos muros da Cidade Universitária? É chocante pensar que uma vida jovem foi ceifada por um motivo banal: um carro, uma carteira e um punhado de cartões. E que isso não ocorre somente na Cidade Universitária. Diariamente, quantas pessoas não perdem a vida ao serem abordados por um assaltante?

Sem querer normatizar a violência e banalizar a morte, a questão é: a USP, apesar de autocracia e da autonomia que possui, está inserida na sociedade. Que sociedade? A que possui câmeras espelhadas nas fachadas de prédios e casas circundadas por cercas elétricas. A que exige a apresentação de carteiras e crachás para que pessoas circulem por prédios. A que vê aumentar o número de empresas de segurança privada. A que é fatiada em condomínios residenciais que oferecem cada vez mais estrutura para que seus moradores não precisem sair às ruas. A que lê, assustada, casos como o de Felipe: que saiu de casa para trabalhar e ir para a faculdade e não voltou mais.

Será que instalar câmaras teria evitado a morte de Felipe? Ainda que o assassinato tenha ocorrido no estacionamento da faculdade, refletimos: como o possível assaltante entrou ali? Se é alguém externo à comunidade USP? Será que as portarias fiscalizaram a entrada dele?

Perguntas como essa não tem uma resposta. Mesmo não trazendo a vida de Felipe de volta, questionamentos assim surgem na tentativa de tomar providências que impeçam que episódios como esse se repitam. Até que ponto dificultar ou aumentar a fiscalização de quem entra na USP impede que alunos sejam abordados enquanto saem da aula? Por mais que se exijam mais documentos para liberar a entrada de pessoas na USP, em algum momento os que saem da Cidade universitária irão às ruas. E aí? Qual câmera acompanhará qualquer movimento estranho que aconteça nas ruas? Quem é o segurança responsável por exigir a carteirinha dos pedestres que preenchem as calçadas da cidade?

Esse modelo de segurança (crachá, câmera e vigilantes) já é praticado fora da Cidade Universitária e, mesmo assim, ocorrem assaltos e mortes todos os dias. Talvez, por ser uma Universidade pública e pela importância que tem, o fato da USP ser palco de um assalto que culminou na morte de um aluno chame mais atenção do que outros assaltos espalhados pela cidade. Mas é difícil imaginar que a USP está isolada da sociedade e dos problemas que ela vive.

A partir disso, devemos ponderar quão complexa é a questão. Longe de haver resposta fácil para o problema, será que esse episódio não demonstra que a segurança como um todo apresenta problemas graves? E quem não pode pagar por seguranças e câmeras? Deixam de sair de casa por não ter quem os proteja? Nessa hora, se vê a falha do Estado, o responsável por oferecer serviços básicos como segurança a todos os cidadãos.

É preciso entender o choque e a preocupação de pessoas como Tomy: pais preocupados com a segurança de seus filhos. Depois da morte de Felipe, é óbvio pensar a comoção que vivida pela comunidade USP e pela sociedade como um todo. É preciso câmeras, vigilantes e catracas para evitar que outras pessoas morram na cidade universitária? “Tem que pôr”, é o que qualquer pai provavelmente responderá, na tentativa urgente e desesperada de não viver o mesmo que os pais de Felipe.

Tentar ver fatos como esse numa lógica macro torna-se ainda mais difícil quando se pensa que um jovem teve sua vida interrompida tão cedo e de modo tão banal. Mas, ainda assim, é preciso tentar compreendê-lo numa escala muito maior: o problema de segurança, a banalidade com que a vida é tratada, no quanto a violência vem se tornando, cada vez mais, personagem de nossas vidas. A desumanização está presente não só na Cidade universitária, mas nas ruas, nas esquinas, nas empresas, nos condomínios. Em todos os cantos.

Quebrar essa desumanização e melhorar o aparato de segurança na sociedade soa uma missão distante e por demais complicada. “Algo deve ser feito imediatamente”. Solução mais imediata? Aumentar a iluminação (hoje pífia e mal distribuída) do campus. Ampliar e melhorar a estrutura e as condições de trabalho da Guarda Universitária.

Matéria publicada no Jornal do Campus (23/09/2010) contém o depoimento do diretor da Divisão de Operações e Vigilância (DOV) da Cocesp, Ronaldo Pena. Segundo ele, a Guarda Universitária ela conta com, aproximadamente, 110 homens não armados que se dividem no patrulhamento da Cidade Universitária em viaturas, motos, bicicletas e a pé. Fica a questão: 110 homens são capazes de cuidar dos 4,7 milhões de m² da Cidade Universitária? Além da Guarda Universitária, operam hoje no campus Butantã seguranças terceirizados, além de haver a circulação da PM pelo local. Entupir o campus com diferentes organizações de segurança não foi suficiente para impedir que a morte de Felipe ocorresse. Não seria mais eficiente garantir a existência de uma Guarda melhor e mais preparada, equipada, que centralizasse a segurança do Campus? Em entrevista à TV, Mauro Maia, capitão da PM, houve uma “falha de comunicação dos vigilantes”.

Há ainda um problema central a ser discutido: o isolamento da USP. Esse isolamento não se dá apenas pela localização da Universidade (numa região em que o metro chegou há pouco mais de um mês), mas também ao método que a gerencia.

Nos fins-de-semana, só se pode entrar no campus após apresentar a carteirinha. Além disso, a USP parece distante: como a maior Universidade do país se relaciona com a comunidade que não desfruta diretamente de seus estudos, mas que paga mensalmente por ela (por meio do ICMS)? Mais rigor na fiscalização de pessoas, catracas e câmeras… será que isolar ainda mais a USP, fechando-a aos que não passam no vestibular, resolve o problema? Ou reforça a visão (errônea e estereotipada) da USP apenas como local onde há jovens com celulares, notebooks e carros a serem assaltados?

Sem uma resposta simples e certa, ficamos pasmos, incrédulos, pensando, mesmo sem desejar: “Poderia ter sido comigo ou com algum amigo meu”. Pensar na dor e no desespero da família de Felipe intensifica o medo de ver cenas assim se repetirem. Duvido que exista alguém que não queira solucionar o problema da segurança, mas duvido igualmente que um pai fique calmo ao pensar quanto tempo isso pode demorar a ocorrer. Enquanto isso, seus filhos vão ao trabalho e à faculdade. Perguntado por que vem buscar a filha diariamente, Tomy, que mora na Zona Norte de São Paulo, responde aflito: “Dá pra se sentir seguro? Tem condição de deixar o filho voltar sozinho para casa depois da aula, tarde da noite?”. Me pergunto agora: e quem só pode voltar para casa sozinho, por meio de carro, ônibus ou metrô? E cada um dos cidadãos que saem às ruas sem ter a certeza de que, ao fim do dia, retornarão às suas casas? Quem dará segurança a eles?

Infelizmente, nada trará a vida de Felipe de volta. Mais uma família se despedaça em meio à violência em que todos vivemos. Mais uma mãe chora a morte de um filho “carinhoso, esforçado, trabalhador, que estava cheio de planos e de vida pela frente”. Até quando ligaremos a TV e leremos os jornais com tragédias como a vivida pela família e pelos amigos de Felipe agora? Quando vamos discutir o problema em sua raiz, buscando respostas “rápidas” mas sem esquecer que problemas como esse são estruturais, expõe fragilidades vividas por tantos, todos os dias e exigem mudanças radicais na lógica de organização e de execução?

Resta-nos o silêncio. Da angústia. Da impotência.  Da incredulidade. Do medo. Medo de que o episódio se repita. De não encontrarmos uma(s) resposta(s). Que, nesse silêncio, busquemos um espaço para pensar como impedir que outros Felipes sejam perdidos.

6 Respostas para “Silêncio na Cidade Universitária

  1. Pingback: O reitor Rodas e a crise da segurança: a doutrina uspiana do choque « Em Defesa da Educação Pública

  2. Pingback: USP « F2 véia de guerra

  3. Paulo Fávari 20 de maio de 2011 às 13:14

    Na minha opinião, fechar o campus ainda mais não resolve nada. Pelo contrário, é melhor que se abra, que se ofereçam atividades à população em geral, que se torne o campus mais movimentado principalmente à noite e nos fins de semana.
    O fato de pipocarem pedidos por mais polícia, mais câmeras, mais catracas, vem de uma noção militarizante da marginalidade. Não como um reflexo social da desigualdade econômica. O que não quer dizer que não se deva ter nenhuma espécie de policiamento; deve, mas não só ele e nem ele ser o principal fator na segurança (seja do campus ou de qualquer lugar).
    Enfim, é ingênuo demais pensar que polícia e aparatos tecnológicos trazem segurança. Trazem, no máximo, repressão, respeito através do medo. Se o campus se tornar um espaço de atividades e de diálogo com a comunidade em geral, pacifica-se, consegue-se o respeito através do respeito -pleonasmo necessário -, tanto da comunidade pelos uspianos quanto dos uspianos pela comunidade.

  4. Kérouls 20 de maio de 2011 às 09:58

    Putz, Alê! Muito bacana!

  5. Dennis de Oliveira 20 de maio de 2011 às 09:43

    Lindo texto, Alê. Além de captar uma perspectiva mais humana do fato, você não caiu na fácil tentação de defender um maior isolamento da universidade como solução para o problema como estou vendo na boca de muitas pessoas. Comentei no facebook uma coisa que me incomoda muito: a violência é um problema grave que vem crescendo na nossa sociedade na mesma proporção que aumenta a disseminação da ideologia do consumismo e do sucesso pelos meios de comunicação de massa. Porém, a violência parece comover a mídia hegemônica quando bate a nossa porta. Assim como o Felipe, nosso colega de universidade, muitos jovens são vítimas de tragédias semelhantes nas periferias das grandes cidades. Há muitos “felipes” no Jardim Angela, Capão Redondo, São Remo, São Mateus, nos morros do Rio de Janeiro, etc. Vamos nos mobilizar para discutir isto de forma profunda e séria para pensar soluções democráticas e cidadãs para enfrentar o problema da violência.

  6. Nana 19 de maio de 2011 às 17:51

    Destruiu no texto, Alê. Destruiu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: