Paradoxos do poder


Povos indígenas ainda sofrem com a invasão de suas terras por grileiros; paradoxalmente, movimentos sociais no campo são acusados de invadir terras que não produzem nada.

Uma propriedade para ser considerada privada não pode estar ociosa, precisa respeitar as leis trabalhistas e ambientais e não pode estar cultivando drogas ilícitas. De acordo com essa definição de propriedade privada, grande parte das terras do norte e nordeste do país podem e devem ser consideradas terras públicas – boa parte dessas, entretanto, vem sendo griladas e já tramitam no congresso medidas provisórias que visam torná-las legais.

Para o professor de Geografia Ariovaldo Umbelino de Oliveira, essas medidas vão na contramão do reconhecimento das terras indígenas e da reforma agrária e apontam para um cenário cada vez mais caótico no que tange a preservação da Amazônia.

A prevalência dos interesses políticos nesses processos fica claro mediante novidades como o plebiscito pela divisão do estado do Pará. Ariovaldo aponta que existem interesses geopolíticos, meramente políticos e, sobretudo, político-partidários nessa decisão. “A divisão do estado do Pará daria autonomia para certos setores locais explorarem mais e mais os recursos naturais da região”. Carajás tem uma das maiores jazidas de minério de ferro do país; a Serra do Navio, de manganês “Ou tinha, né, já que o manganês de lá foi todo extraído e agora se encontra em depósitos no deserto de Nevada para ser revendido para o Brasil quando estiver em alta no mercado” comenta ele.

Terras indígenas

A demarcação de reservas indígenas precisa ser feita a partir de um laudo antropológico e da aprovação do presidente da república. Esse processo burocrático que fecha os olhos para a história da ocupação do Brasil (que foi feita por esses povos indígenas e, posteriormente, pela sociedade judaico-cristã) coloca em xeque a autonomia do povo índio perante sua própria cultura e organização social e contradiz o discurso dos setores conservadores da política nacional. Se o termo ocupar se trata de fixar moradia em um espaço antes vazio, e invadir denota entrar em um espaço que já era ocupado por outrem, a conclusão óbvia a que chegamos é que nessa história (a do Brasil), índios ocuparam o território nacional, mas europeus o invadiram. Semelhante ao que os movimentos sociais no campo são acusados de fazer – apenas acusados, porque o MST, alega o professor, não ocupa terras que não sejam improdutivas.

Mas o homem branco sim, esse o faz. Não é preciso ir para muito longe para ver a atuação criminosa dos grileiros nas terras indígenas – a região de Alphaville e Barueri, onde atualmente se instalam condomínios de luxo na Grande São Paulo são nada mais do que terras indígenas invadidas.

 Políticas Públicas

Para o professor, essa situação está distante de ser resolvida. Se o governo Lula ainda se propunha a promover a reforma agrária em seu primeiro mandado, atualmente a plataforma da campanha de Dilma e suas ações iniciais como presidenta apontam para a erradicação da miséria com dois métodos: promovendo ações assistenciais e mudando o conceito de miséria.

Essa mudança de visão do governo federal vai ao encontro das reivindicações do MST. Apesar deste ser um movimento social pela reforma agrária, alguns setores do MST não a defendem mais – prova disso é a ausência de ocupações no campos.”Hoje em dia, quem ocupa terras no campo são poceiros, não mais o MST”, alega ele.

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Uma resposta para “Paradoxos do poder

  1. Rodrigo 15 de maio de 2011 às 01:10

    Após conseguirem desmobilizar o movimento camponês através de manobras políticas, a tal da reforma agrária republicana e burguesa (européia) fica cada vez mais longe…

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