“Questionar”, verbo intransitivo


Capas do disco "The Fame", de Lady Gaga e do single "In My Arms", de Kylie Minogue. Preciso dizer algo? (Créditos: http://itsnotjoseph.blogspot.com/)

Há cerca de dois anos, venho sendo confrontado com uma questão: “Como eu, jovem e homossexual que sou, posso não engrossar as intermináveis fileiras de fãs da cantora Lady Gaga?”. E, mais do que isso, “como posso juntar-me a tantos heterossexuais em sua adoração pela banda alemã de rock pesado Rammstein?”. Bem, diante de tanto espanto, acho que finalmente consegui reunir em palavras as razões pelas quais nunca me empolguei com o trabalho de Lady Gaga. Gostaria, então, de encerrar esse assunto que tanto me persegue.

Para fins de ilustração, gostaria de relembrar um evento que se passou seis anos atrás, quando ainda cursava o ensino médio. Àquela época, os alunos de minha escola receberam uma tarefa especial: cada classe devia montar um desfile de moda criativo e ousado e apresentá-lo aos demais colegas. Um dos desfiles, cujo tema era a mudança da moda e dos costumes ao longo do tempo, encerrou-se com a representação do que os alunos consideravam um “casamento do futuro”, no qual a noiva trajava vestido branco, veu e grinalda e era acompanhada de um “noivo” do sexo feminino, exibindo uma roupa bastante cavada e sensual. No mesmo dia, vi um dos integrantes da sala expressar seu orgulho por fazer parte de um grupo tão moderno e tolerante. No entanto, meses depois, um aluno dessa sala contataria a diretora, comunicando sua saída da escola. O motivo? Ele estaria sendo alvo de discriminação e perseguição devido a sua homossexualidade…

Talvez você esteja se perguntando o que esse caso tem a ver com a nova “musa dos gays”. Bem, acontece que o sucesso de Lady Gaga se apoia exatamente nessa cultura pseudo-ousada que emergia naquela época. Numa modernidade forjada, preconceitos antigos e ultrapassados morrem somente para dar lugar a novos preconceitos, mais “modernos” e “avançados”.

Já à época, crescia rapidamente o número de cantoras do sexo feminino que (numa pífia paródia dos trabalhos antigos de Madonna) proclamavam sua “liberação” por meio de um grande apelo sexual e, cada vez mais, muito lesbianismo. Mais do que isso, popularizava-se um discurso de valorização da identidade individual e de recusa a se submeter às regras do mainstream. Há varias gerações, a cultura pop vem buscando canalizar o típico desejo adolescente de se chocar contra um “sistema” estabelecido, resultando numa progressiva liberalização dos costumes (pelo menos no que tange o sexo). Porém, a indústria cultural parece ter aprendido com o tempo e hoje o que se vê é essencialmente a venda de discursos “contestadores” que, cada vez mais, não contestam nada. Por contraditório que pareça, o alternativismo se tornou a nova ortodoxia. Mas não no sentido clássico da atitude inicialmente estigmatizada que, uma vez adotada como forma de contestação, substitui as práticas antigas, mas simplesmente porque “ser (ou declarar-se) alternativo” se tornou a atitude padrão.

Nesse contexto é que Stefani Germanotta, sagaz observadora da cultura pop, emerge com um trabalho cirurgicamente calculado para arrebatar corações jovens e impressionáveis. De fato, ela pode ser considerada uma das mais aplicadas alunas dos grandes artistas do passado. Com melodias simples, batidas contagiantes e letras que afirmam à exaustão: “Hei! Eu sou ousada! Eu sou sexy! Eu sou bissexual!”, sua música praticamente se impõe às rádios. Sua principal arma, a imagem, também reflete claramente as lições que aprendeu dos mestres. Como não se para de comentar, cada um de seus figurinos é claramente inspirado em roupas de artistas como Cher, David Bowie, Kylie Minogue e, principalmente, Grace Jones e Madonna. Mas Gaga deve sua lição principal à Rainha do pop.

Como bem disse Camille Paglia, a imagem de Gaga é marcada por uma exposição fria e sem vida do próprio corpo. Uma exibição assumidamente calculada e que não pode (nem pretende) ser sexy. Esse retrato agressivo da sexualidade humana lembra em muito os trabalhos de Madonna no início da década de 90, mas com uma sutil diferença: totalmente desprovido de qualquer elemento verdadeiramente chocante. “Ora! E que tabus há na nossa sociedade tão aberta para se chocar?”, muitos me indagam. Mas basta mostrar a algumas pessoas “modernas” alguns dos trabalhos de Madonna à época e sua reação responderá à pergunta. Entre os anos de 91 e 95, a principal mentora de Lady Gaga centrou seu trabalho numa espécie de viagem ao submundo urbano, expondo de maneira crua práticas sexuais estigmatizadas, indo desde a homossexualidade (de ambos os gêneros e não só feminina como parece ser a nova regra) até o sexo grupal e a zoofilia. Resultado: o público não comprou e Madonna teve seu nome sujo e seus discos amplamente rejeitados pela maior parte da década. A cantora só voltaria a fazer sucesso quando, em fins dos anos 90-início dos anos 2000, adotasse uma atitude “polêmica” mais branda, mostrando dedos do meio e simulando masturbação, mas recusando-se a tocar em qualquer assunto verdadeiramente controverso.

Mais do que figurinos, Lady Gaga herdou de Madonna a pseudo-polêmica. Daí minha recusa a venerá-la. Um dos principais indícios dessa atitude: Lady Gaga enfatiza o lesbianismo, mas pisa em ovos quando o assunto é homossexualidade masculina. E não venham me dizer que “Alejandro” foi uma homenagem ao público gay! É incrível como hoje podemos mostrar longas cenas de sexo entre mulheres e mal despertar comentários, mas basta exibir alguns rapazes trajando meias-calças (o que já vem sendo feito à exaustão há muito tempo) e esfregando a mão no peito um do outro e a multidão exclama: “Nossa! Isso é tão chocantemente gay!”.

Enquanto isso, poucos sabem que, já em 2006, a banda Rammstein (da qual falei no início do artigo) produziu uma canção chamada “Mann gegen Mann”, exclusivamente dedicada a homens que sentem atração por outros homens. Vale notar que o videoclipe dessa música faz as “ousadias” de Lady Gaga e suas “homenagens aos gays” parecer ridículas (eis o link para quem quiser conferir: http://www.youtube.com/watch?v=75vhRlkDXZc). E, verdade seja dita, esses seis marmanjos alemães, veiculadores de um rock pesado destinado a um público predominantemente masculino e heterossexual, têm muito mais a perder com essa atitude do que Gaga, de cujos fãs boa parte é composta de homens homossexuais, jamais teria.

Enquanto Gaga não for além de suas batidas dançantes e frases de contestação vazias, ela será apenas (mais) uma artista tão comumente incomum quanto tantas outras.

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3 Respostas para ““Questionar”, verbo intransitivo

  1. Leonardo Fernandes 11 de maio de 2011 às 02:09

    Uhul, jornotações gerando contatos.

  2. Dyva 9 de maio de 2011 às 02:50

    Ola Fernando querido
    gostey muuyto deste artigo, sou DONA de uma webtv aqui em São Paulo
    chamada TX4, http://www.tx4.tv , sou trans e tenho uma equipe grande na produção de programas deste canal, enfim
    sem fins lucrativos ela, coisa de ponta!
    quero falar com voce menyno , como faz? jejeje
    manda email pra minha acessoria , producao@tx4.tv
    bj

  3. Tamires Santana 2 de maio de 2011 às 11:23

    Parabéns pelo grande artigo Fernando! Assumo a minha falta de interesse pelo trabalho dessa artista intitulada por muitos como “nova rainha do pop” e compartilho da sua opinião! Bjus moço!

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