Um xerox de Seu Fernando


Quem passa algum tempo na Escola de Comunicações e Artes da USP certamente já ouviu falar de Fernando Alberto dos Santos, 54 anos. O dono da copiadora localizada no saguão de entrada do prédio principal da ECA (o CCA) sempre exibe um sorriso cativante em meio às barbas grisalhas, independentemente da pessoa a que está atendendo ou do horário, que é extenso, das 8h às 22h.

Nem sempre foi assim, conta Seu Fernando, como é conhecido. Antes da gráfica, ele tinha uma transportadora. Serviço de xerox era por conta da própria ECA e ficava na biblioteca, o que acarretava muitos problemas: máquinas quebrando, funcionários que faltavam, horário de fechamento do local antes do término da aulas noturnas, muito barulho…

Há 11 anos atrás, em meados de outubro, Seu Fernando começou a trabalhar na copiadora, por meio de uma indicação de sua cunhada, que também atuava na ECA e era muito amiga do funcionário que cuidava do xerox, Seu Irineu. Assim, tomando gosto pelo serviço, no início do ano letivo seguinte, Seu Fernando já tinha seus próprios equipamentos e dava vazão a um empreendimento que aos poucos se construía.

O início foi em uma sala pequena nos fundos de um corredor. Ficou lá até a ocasião de um incêndio na faculdade, quando optou por ceder seu espaço, já devidamente licitado, e voltar temporariamente à biblioteca. Seu Fernando mostra-se incomodado ao relembrar os tempos em que concentrou todas as suas atividades ali. Mas, passado isso, ele diz que merecia um local com maior visibilidade, no que foi atendido.

A equipe de Seu Fernando, que o acompanha há cerca de oito anos, trouxe melhorias ao serviço de xerox da ECA, beneficiando a todos. Para que isso fosse possível, o sempre bem-humorado Seu Fernando precisou adotar várias medidas. Por exemplo: transferir as pastas de professores da biblioteca para a outra sala, organizar todas as páginas disponíveis para cópia, abrir espaço para a colocação de mais um computador e questionar os professores quando os alunos passam a cobrar textos que não se encontram na pasta, ou mesmo a solicitar a existência de uma pasta. “Se eu tenho a bibliografia, sei qual que é, vou na biblioteca eu mesmo, acho [o texto] e tiro [cópia]. Já cansei de fazer isso daí”, diz Seu Fernando, exemplificando vários casos com um tom mais agudo, que demonstra certo enfado.

Um desejo presente no dono da copiadora é um pequeno espaço privado para que possa fazer algumas coisas mais reservadamente, e mesmo ter objetos pessoais. “Eu já fui assaltado, não tem nenhum espaço mais privativo pra eu fazer as minhas coisas aqui”, desabafa, relembrando ataque à mão armada ocorrido na área externa do edifício. O local realmente não é muito grande e por vezes fica apertado com tanta gente, mas, enquanto sua solicitação não é atendida, ele disse que “dá um jeito”.

Na atualidade, enquanto Seu Fernando fica na entrada do CCA, a sua esposa é a responsável pelas cópias da biblioteca. Ambos tocam a gráfica, possuem funções específicas e evitam opinar no trabalho do outro. Eles têm três filhos – de 21, 14 e 11 anos de idade – e moram na Vila Prudente, zona leste de São Paulo.

Quando questionado sobre como consegue estar sempre presente na gráfica e ao mesmo tempo lidar com a vida familiar, Seu Fernando sorri e diz com humildade que é como qualquer outra pessoa, tentando conciliar as coisas: “Todo mundo precisa trabalhar, mas todo mundo precisa descansar também, né?”. Ele fala que confia na sua equipe e que, por isso, às vezes se permite chegar um pouco mais tarde. Nesse sentido, o senhor simpático vangloria da liberdade que tem hoje, pois pode estender ou encurtar seu horário conforme a necessidade.

Seu Fernando é paulistano de nascença e demonstra com o seu jeito tranquilo que encontrou na ECA o seu lugar. Durante a entrevista que originou este perfil, feita na frente do prédio do CCA em um horário um pouco movimentado, sua pose era descontraída e não pareceu incomodar-se com o barulho dos estudantes ao redor.

Ele pontua a diferença que existe entre trabalhar na Universidade de São Paulo ou em outro lugar, afirmando sem rodeios que ali o nível intelectual e socio-econômico do público é superior à média das pessoas e que isso exige um tratamento específico, mas não diferenciado: “Trato todos por igual, não faço diferenciação”.

O sucesso do negócio de Seu Fernando e sua esposa é fato. Prova disso é que a gráfica perdura na Escola de Comunicações e Artes. Há alguns anos até havia o xerox do CA, mas que, com o tempo, foi encerrando suas atividades. Já a gráfica do casal é utilizada até hoje, inclusive por pessoas de outras unidades da USP. Tal fato é devido à dedicação da equipe, que preza por um bom atendimento, e à qualidade dos serviços prestados. Se alguém reclama do trabalho, Seu Fernando diz que prefere refazê-lo a arrumar confusão. Agindo assim, nunca teve problemas mais sérios no exercício de seu ofício: “Não gosto de me desgastar não, gosto de facilitar a vida. Não gosto de complicar não!”. Que assim seja, então. Os uspianos agradecem!

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