Very Important Problems


Cartaz do filme "VIPs" (2011)

ATENÇÃO! SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME “VIPs”, HÁ SPOILERS!

Parcialmente baseado em uma história real, o filme “VIPs”, de Toniko Melo, conta a história de Marcelo, um cara que poderia (e talvez até conseguiria) ser eu ou você: persegue um sonho, tem certas dificuldades de relacionamento com os pais e não consegue se aceitar. Mas, como diria Caetano, de perto, ninguém é normal. Graças ao argumento muito bem construído e à atuação de Wagner Moura, o longa nos conta um pouco mais sobre identidade, esquizofrenia e aparências.

É certo que Marcelo procura sua personalidade, mas na verdade o que ele mais faz ao buscá-la é se esconder: não é por acaso que o filme mostra o carnaval de Recife e suas máscaras. Ele se esconde atrás das diversas faces que assume, atrás de suas alucinações, atrás de seu passado, atrás de seus sonhos futuros e, principalmente, atrás das mentiras que conta para si mesmo. Ao longo do filme, a questão profundo/superficial é explorada de diversas maneiras: desde o recurso de câmera que mostra o interior de uma piscina e sua superfície até a técnica narrativa de inserir uma foto da mãe do protagonista dobrada para esconder o verdadeiro contexto em que a imagem foi registrada.

Em “Tudo sobre minha mãe”, filme de 1999 de Pedro Almodóvar, uma personagem declara: “Me chamam de Agrado porque toda minha vida só pretendi fazer a vida dos outros agradável. (…) Custa caro ser autêntica, mas nesse aspecto não se pode ser mesquinha, pois nos tornamos mais autênticos quanto mais nos aproximamos daquilo que sonhamos que somos”. De certa forma, Marcelo deseja apenas agradar ao “pai”, ou melhor, à figura que carrega em si mesmo do que foi o pai. Será que esse pai existiu realmente? A foto dobrada da mãe deixa a dúvida no ar: será que Marcelo nunca conheceu o pai? No começo do filme, a mãe coloca o rosto dos dois mascarados perto da foto do filho, como se tentasse compará-los, tentando adivinhar qual dos dois seria o pai. A partir daí, a semente da dúvida está plantada na cabeça do espectador: será o protagonista filho de uma aventura carnavalesca da mãe, que nunca voltou a encontrar os dois foliões? É possível que, quando criança, o personagem tenha descoberto a foto – como indica uma cena em que ele está sentado na cadeira do salão de beleza – e passado então a construir um modelo de pai ideal. Esse pai seria do tipo que conta histórias interessantes para o filho quando ele é pequeno. Do tipo que sai para beber uísque e jogar sinuca quando ele é adolescente. Do tipo com uma profissão admirável, apesar de a mãe discordar desse ponto. Do tipo que dá conselhos e conhece frases de efeito. O desconhecimento do pai biológico leva diariamente inúmeras pessoas ao divã, pois construímos nossa identidade em parte com base em nossa ascendência. Dúvidas acerca do futuro muitas vezes nos levam a buscar as respostas em nossas origens. O cartão-postal dizendo “um dia a gente resolve esse enigma” é uma pista: seria o enigma a própria identidade do pai? Talvez a alucinação do pai seja apenas uma personificação do sonho de Marcelo, sua tentativa de ser o mais autêntico possível, assim como Agrado.

As várias personalidades de Marcelo vão aflorando quase que por acaso, ocasionando mudanças no visual, no nome e no papel social exercido em relação a seus conhecidos. Esquizofrenia significa literalmente “mente dividida”. Uma mente dividida não poderia originar nada menos do que uma personalidade dividida, cujos pedaços adquirem certa independência e assumem tanto diferentes “papéis” na vivência do esquizofrênico quanto uma realidade exterior ao indivíduo (o que causa as alucinações e os delírios). Na vida real, a esquizofrenia é uma condição tão multifacetada quanto a personalidade de Marcelo, e o filme cumpre bem o seu papel de desmistificar a psicopatologia sem subestimar o sofrimento que ela carrega consigo. A personagem Sandra quer saber o nome verdadeiro do protagonista e, juntando os pedaços do quebra-cabeça (que seriam os fragmentos de Marcelo), conclui: ele precisa de ajuda. Diversas sinopses e críticas do filme descrevem-no como sendo um filme sobre um vigarista, mas Sandra parece entender melhor a situação; ele não se aproveita das pessoas por ser um picareta, e sim porque não consegue entender o que é a verdade para si mesmo. Os esquizofrênicos são infelizmente considerados até hoje por pessoas menos esclarecidas como farsantes, o que faz com que eles sejam rejeitados e tenham sua convivência em sociedade negada, quando, na verdade, eles são algumas das pessoas que mais precisariam de acolhimento.

Silvia, a mãe de Marcelo, representa um papel importante em sua vida. Sua profissão não poderia ser mais adequada: cabeleireira, especialista em moldar a aparência das pessoas segundo seus sonhos. Em seu salão, é possível ver diversas fotos de revistas de celebridades, o que insinua que ela se interessa por esse mundo de superficialidades e provavelmente usa as fotos para inspirar seus clientes em novos cortes, o que denuncia que nunca estamos contentes com nosso aspecto, seja ele externo ou interno. O filho lhe manda dinheiro, mas não consegue se comunicar com ela. Apesar da falta de diálogos afetuosos com a mãe, a sua imagem aparece no carnaval de Recife, quando, após ser questionado acerca de sua identidade, Marcelo vê dois homens e uma mulher trocando carícias, o que pode ser uma lembrança da fotografia encontrada quando criança. Quanto a esse episódio, sabe-se que o protagonista não reprimiu sua questão com o pai, pois, se assim fosse, ele seria  um neurótico. A psicose é característica do desfecho dado a impulsos que não foram reprimidos, mas que o sujeito não aceita. A figura paterna surge em personagens como o chefe do tráfico paraguaio e o dono da companhia aérea Gol, ambos importantes e admirados em seus círculos sociais, mas Marcelo não mantém uma relação transferencial satisfatória com esses substitutos paternos. O chefe do tráfico joga o boné de Carrera, símbolo de sua identidade, no rio. O dono da Gol é apenas um referencial para que as pessoas possam admirá-lo como herdeiro; é notável que “Henrique Constantino” diga que estão querendo prejudicar o seu pai para o ator de novelas logo depois que Sandra o perturba com perguntas existencialistas, pois, para Marcelo, estragar a imagem construída de seu pai seria sinônimo de descobrir seu nome.

O jovem Marcelo, o aprendiz Dummont, o piloto contrabandista Carrera, o milionário Henrique Constantino, o cantor Renato Russo, o traficante do PCC Juliano, o maravilhoso ator Wagner Moura. José Saramago diz em sua obra-prima “Ensaio sobre a cegueira”: Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós. O eu do protagonista procura desesperadamente unir suas características em um nome, se aproximando de seu sonho ou se distanciando de suas angústias. O filme termina com seu olho, que os apaixonados dizem ser a janela da alma. As aparências enganam, mas ao mesmo tempo revelam algo sobre nós; nossa totalidade nunca será apreendida apenas através do exame da superfície, porém aquilo que escolhemos mostrar para os outros é uma parte nossa, mesmo que seja uma parte que mascara a mais autêntica. Seja qual for a verdadeira personalidade de Marcelo (ou se todas elas são verdadeiras), o longa-metragem do estreante Toniko Melo, com produção de Fernando Meirelles, com certeza será lembrado como um dos melhores filmes do ano.

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2 Respostas para “Very Important Problems

  1. Filumena 3 de novembro de 2011 às 21:00

    Muito bom o texto! Concordo com o Leonardo, consegui entender a trama do filme, realmente é um enredo excelente. Agora ficou a vontade de assistir ao filme.
    Acho que você deve enviar o texto para que pessoas da área de psicologia também fiquem interessadas em assistir este filme.

  2. Leonardo Fernandes 27 de abril de 2011 às 03:02

    Novamente, a combinação entre psicologia e jornalismo faz dos seus textos artigos brilhantes. Eu assisti o VIPS hã duas semanas e não tinha compreendido boa parte do que compreendi agora, justamente porque essa relação entre a busca da paternidade e a esquizofrênia dele não estava clara para mim. Mas interessante perceber como essa relação estética que o filme propõe entre o tema central e os signos (as máscaras, a fotografia, o próprio carnaval) elucida a questão da busca pela identidade de uma maneira tão clara. Gostei mesmo, valeu Vic!

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