Yellow


Não, não estou me referindo à famosa música do Coldplay, tampouco filosofarei sobre o sol ou coisa parecida. Yellow, para mim, foi a primeira palavra que minha irmãzinha falou em inglês.

Até aí tudo bem, muita criança já nasce bilíngüe, sofre o ‘estágio/estádio do espelho’ para somente depois reproduzir a fala e o que mais Lacan e/ou a psicanálise quiser. O que me fez parar para pensar e vir escrever aqui foi o fato de que estou perdendo a alfabetização e tudo o mais da minha irmã que tem três anos de idade. E eu queria saber como é que ELA encara isso.

 Para mim você deve imaginar como é a situação; ou não, porque não é muita gente que tem diferença de 16 anos com relação à(o) irmã(o). Fico chateada, me questionando o motivo de as coisas terem se desenvolvido assim, minha saída de casa coincidindo com o início da infância dela. Gostaria, sim, de estar mais presente em sua vida, sinto que começo a perder MUITA coisa… Isso porque meu sentimento é de irmã/mãe, confesso. E já que sou tão ligada a questões educativas, é meu desejo auxiliar na educação da pequena…

Mas qual será a ideia que minha irmã tem disso tudo? Se é que ela tem uma ideia concreta a respeito… Tanta gente se preocupa com a separação dos pais, com ‘como é que isso ficará na cabecinha da criança/dos filhos?’, contudo alguém já se perguntou o que ocorre quando é o irmão quem some?

Não tivemos muito tempo de convivência para que a Sophia pudesse sentir minha falta, mas hoje ela me vê chegando, ficando dois dias e saindo… Transcorre mais duas ou três semanas e estou de volta, reassumindo meu quarto e minhas coisas, fingindo que nunca saí dali. Não é como se eu fosse uma visita, entende? Ou é?

Eu dou bronca nela e faço uma brincadeira, ou seja, nem a nossa relação se define muito bem, que dirá a minha relação com o resto da família (na cabeça dela)… Quer dizer, o que será que sou, afinal, para ela? Ela é capaz de entender que a irmã faz faculdade fora e volta de vez em quando porque não é totalmente independente ainda? A Sophia até sabe disso, pelo menos é o que ela diz quando perguntam de mim. Ela tem noção de que fico em São Paulo (mas ela sabe o que é São Paulo? O que é faculdade?), já foi no meu apartamento e tudo, é uma garota muito esperta, e não estou exagerando. Porém até onde uma criança pode entender ou ao menos assimilar tal situação?

Não tenho nenhuma formação que possa me ajudar a esclarecer o íntimo infantil, sou leiga no assunto, apesar do muito que já li, mas será que todo leigo não deveria ter um pouquinho mais de informação a esse respeito? Quem sabe os pais criassem melhor seus filhos e a atitude das crianças não fosse um ponto de interrogação enorme… O saber conviver vem da compreensão do outro, não tem jeito…

Quer um outro exemplo? Minha irmã adora a série de filmes ‘A Era do Gelo’ e ela dá risada EXATAMENTE na hora em que se é normal dar, e isso assistindo ao filme SOZINHA. Ela compreende, então, toda a representação psicológica e humana que esse tipo de desenho animado costuma conter, inclusive nos momentos de piada? Sinceramente, não sei.

Enquanto o conselho educativo for ‘fale a língua da criança’, contudo não houver maior esclarecimento sobre QUAL língua é essa, dúvidas e divagações como as minhas serão constantes. Pior, maus-tratos e um desenvolvimento não saudável continuarão a assolar o Brasil. Ok, estou simplificando demais a questão, mas dizem que a família é a base de tudo, não? Se alguém aí dispuser de informações que ajudem a nortear quem convive com crianças, agradeceria se houvesse divulgação. Não para mim somente, mas para O MUNDO.

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3 Respostas para “Yellow

  1. Alexandre Morandi 7 de setembro de 2011 às 22:27

    Pois é Jé…realmente a Sophia veio num momento que você estava em outra fase da vida…no final de sua adolescência e início dos seus projetos de vida. Mas não se preocupe as coisas assim aconteceram e, pode até parecer hipocrisia de minha parte, foi “Ele” quem quis. Não planejamos isso, mas confesso que sempre quis outro filho…um irmão(â) para você mas devido a tudo que passamos desde o início de nossa união, digo minha com a mãe, não aconteceu mais cedo…mas acabou acontecendo num bom momento de nossas vidas, com melhor estabilidade financeira e psicológica.
    Para nós é uma benção e, para mim em especial, vou tentar fazer algumas coisas diferentes do que fiz contigo…que hoje me arrependo e você sabe do que digo, mas acredito que ainda é em tempo pois nosso relacionamento e amizade esta cada vez mais forte.
    Voltando a Sophia…saiba que ela sabe sim quem é a irmã dela…da importância que você tem para nós e para ela. Acho que você não parou para pensar que os irmãos sempre “pegam” como exemplo e modelo na família os irmãos mais velhos e tenho certeza que você será, ou melhor, já é um grande exemplo e modelo para ela. Entende isso??? Você é muito importante para a Sophia e está contribuindo SIM para a sua formação, não é distancia que vai mudar isso, além é claro do carinho e atenção que tens por ela. O texto que escreveu só vem a demonstrar em palavras esse sentimento lindo para com ela.
    Sabe na minha família..lá com minha mãe e meus irmãos…não sei se percebeu que eu, por ser o mais velho e ter feito as coisas na vida como fiz e pelo que passei…acabei por servir de alguma forma de modelo para meus irmãos…
    Continue assim… atenciosa com ela…sempre que puder dedique algum tempo seu para ela e o resto já está acontecendo.
    Parabéns pelo texto!
    Te amo!
    Pai

  2. Leticia 25 de março de 2011 às 19:03

    Vivo me fazendo me questionando sobre isso também, Jé. Tenho dois irmãos pequenos, que acabaram de fazer 4 e 5 anos. Como meus pais são separados, vejo os dois praticamente uma semana (ou menos) por mês. É mais ou menos a mesma coisa: levo uma mala, passo um tempo lá, brinco com eles… e vou embora.
    Fico me perguntando também como é que eles me veem, sendo que sou meia-irmã deles. O mais engraçado de tudo é que o mais novo me enxerga como uma irmã mais velha, e parece entender que temos o mesmo pais e mães diferentes. O mais velho também me chama de “irmã”, mas dá pra perceber que ele não entende bem o porquê de eu ter uma mãe diferente, e aparecer na casa deles de vez em nunca…
    Acho que definir a relação de vocês vai muito do comportamento da sua família também: imagino que seus pais expliquem pra ela de uma forma mais simples porque você está ausente. Eu acredito que as crianças tenham mil e uma dúvidas, mas não se importam muito com elas principalmente quando se trata de família. Mesmo não entendendo a situação, ela provavelmente sente que você é parte integrante da família, e isso é o que importa nessas horas, né? :)

  3. Juliana Santos 25 de março de 2011 às 02:43

    Tiro o chapéu pra você, Jé.
    Eu – infelizmente – não tive a sorte de ganhar uma irmãzinha, mas sinto um pouco isso com as filhas das minhas primas. Concordo plenamente que esse universo é desconhecido, e acho que subestimado, mesmo. Aquela coisa de “ela não entende mesmo”, sabe? Mas é engraçado, familiar também sempre conta sobre “como a criança é mais esperta do que ele poderia saber”. É complicado, esse tipo de informação é complexa e nada difundida. Acho curioso também porque ouço MUITO as pessoas mais velhas dizerem que “as crianças de hoje em dia já nascem mais inteligentes”…
    Mas se quer saber, apesar da distância, é positiva a grande diferença de idade entre vocês, justamente por te dar a possibilidade de levantar esses questionamentos.
    A minha opinião é que ela entende, sim. Mas é igualmente leiga, talvez até sentimental mesmo.
    Enfim, se quiser insistir no assunto e escrever mais aqui no blog, me disponho a ajudar na apuração, porque me interessei pra caramba pelo seu texto!

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