“What lies beneath”: o carisma da rainha do gelo


Sábado à noite. Uma multidão de coturnos, corsets, roupas pretas e maquiagem pesada marcha em direção ao HSBC Brasil. Do lado de fora, o nome da voz que preencheria a noite: Tarja Turnen.

Tarja Turunen no HSBC Brasil em 12/03/2011

Cheguei às 21h – um eixo de simetria: uma hora para começar o show, uma hora desde que o portão fora aberto. Entre cruzar o portão e chegar à platéia, me deparei com três situações inusitadas. Não havia filas em nenhum dos setores. No corredor, uma “revista” no mínimo prática: “Tem alguma comida ou bebida na sua bolsa? Não? Então pode entrar”. Para coroar, estendi a mão para ser carimbada, e ela voltou limpinha. Ingenuamente, quis recorrer: “moça, o carimbo não saiu”. “É de neon”, ela respondeu (só que eu ainda não decifrei que tipo de neon é esse, porque nem trancada no escuro vi carimbo na minha mão).

Entrei. No palco, a banda de abertura: Ecliptyka, comemorando o lançamento de seu primeiro álbum, “Tale of Decadence”. O conjunto em si não me chamou tanto a atenção quanto a forma como algumas “faltas” diferenciam o show de abertura do principal. Por mais que a vocalista – Helena Martins – tenha desenvoltura, saiba fazer as poses certas (muitas das quais Tarja fez igualzinho mais tarde) e até se aproveitar do “ventinho” no centro do palco que faz os cabelos voarem, em sua apresentação faltaram os efeitos de iluminação, faltou qualidade de som (mal se podia entender a letra de suas canções) e, talvez a maior falta de todas, faltaram os gritos da platéia.

Depois de o show de abertura ter chegado ao fim, as cortinas se fecharam novamente. Quase uma hora de burburinho de platéia se passa, e de repente um silêncio completo se instala. Todos se calam para ouvir as longas e agudíssimas notas que saíam detrás do palco – o aquecimento vocal de Tarja. Pouco depois, com menos de dez minutos de atraso, começa o show.

Em “What lies beneath”, seu segundo álbum desde que deixou o Nightwish, Tarja consolida a carreira solo. Se “My winter storm”, que a inaugurou, era o prenúncio de uma “ressureição” (“I walk alone”, a principal música do álbum, além do título sugestivo, anuncia: “Eu não morri, estou retornando”), o novo trabalho é a confirmação de que sozinha ela caminha muito bem, obrigada.

"The queen of ice", personagem de "My winter storm"

Mas nada que a tenha impedido de reviver “Stargazers” e – depois de muito o público pedir – “Wishmaster”, canções dos tempos de Nightwish. O cover de “Livin’ on a prayer” foi também um dos pontos altos da noite.

E pra quem acreditava que a finlandesa era mesmo a “rainha do gelo” (uma das personagens de “My winter storm”), se enganou. Agitadíssima e claramente empolgada, Tarja esbanja simpatia. Interage muito com a platéia, pedindo gritos e gestos. Dinâmica, parecia não conseguir ficar muito tempo no mesmo lugar. Cheia de caras e bocas, pulinhos e rodopios, ela ainda brincou: “vocês estão dormindo?”, perguntou, depois de uma seqüência de três músicas ao piano.

Tarja arriscou-se a muito mais do que um “boa noite”, abrindo o show com um “estou muito contente” e chegando até a comentar em português sobre as próprias canções. É claro que a coisa acabou no espanhol em alguns momentos (ela é casada com o argentino Marcelo Cabuli) e terminou no “I’m gonna wiss you”, mas o esforço merece ser reconhecido – eu mesma já esperava um “estou muy contenta” logo de cara.

O show foi uma mescla de músicas agitadas e calmas, de seus dois CDs e um pouco de Nightwish. Tarja tem uma presença de palco incrível e carisma indiscutível. E, aliás, não é a única cheia de surpresas: a noite contou até com musica clássica tocada na bateria.

Com duas horas de duração, o show chegou ao fim. Depois de sair e voltar duas vezes, Tarja de fato despediu-se, deixando a impressão de que queria deixar o palco tão pouco quanto a gente queria que ela saísse.

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