RAF e Guerra Fria


Cartaz de procura de 1972, que trazia a foto de alguns dos membros do RAF

Quando se pensa na efeverscência política e cultural dos anos 1960 e 1970, é comum lembrar dos episódios de Maio de 1968 em Paris e da Primavera de Praga. Na Alemanha, o grupo Baader-Meinhof (ou Fração do Exército Vermelho, tradução para a sigla alemã RAF) foi uma organização de extrema esquerda que bombardeou (com o perdão do trocadilho) a segurança política da próspera Alemanha Ocidental, causando tal distúrbio que, em 1977, uma verdadeira crise institucional ameaçava o governo.

Filmes para aprofundar a discussão:
* O grupo Baader Meinhof (2008)
* A honra perdida de Katharina Blum (1975)
* Os anos de chumbo (1980)

Para entender as raízes das reivindicações da RAF, é preciso também mergulhar no contexto histórico em que ela surgiu. Filhos da “geração de Auschwitz”, os jovens alemães  se viam diante de questões comuns a diversos estudantes universitários na maioria dos países capitalistas industrializados: a eminência de uma guerra nuclear, o sofrimento desumano imposto ao terceiro mundo, o surgimento de movimentos da contracultura que traziam à tona debates como a emancipação da mulher, a libertação sexual e o engajamento político. Além disso, os alemães enfrentavam questionamentos particulares derivados diretamente dos desdobramentos do final da II Guerra Mundial. A “desnazificação” (Entnazifizierung) imposta pelos países vitoriosos se mostrou inócua em muitos aspectos, pois a Alemanha continuava sendo um país de governo autoritário, sustentado pela dura repressão policial e pela mídia conservadora tendenciosa.

Após a trágica morte de um estudante em um protesto contra a visita do então Xá iraniano, desrespeitador dos direitos humanos, Gudrun Ensslin, uma das fundadoras da RAF, propôs aos colegas de universidade que passassem a responder à violência com violência. Foi a primeira vez que o monopólio da violência estatal foi posto em questionamento. Dali em diante, o grupo aos poucos foi ganhando coesão e membros dispostos a pegar em armas contra o sistema. O nome popular do grupo se refere a Andreas Baader (estudante de esquerda de Munique) e Ulrike Meinhof (jornalista militante que aos poucos se envolve nos ideais dos estudantes), referência a um episódio em que ela ajudou na libertação de Baader, quando este estava sob condicional por ter incendiado uma loja de departamentos. Logo o grupo passaria a formar alianças com outros grupos extremistas, inclusive a Frente Popular para a Libertação da Palestina.

Pouco antes da controversa morte na prisão de diversos líderes da RAF (incluindo Baader e Ensslin), em 1977, houve o episódio que ficou conhecido como “Outono Alemão”. A segunda geração de integrantes do grupo sequestrou e matou o procurador-geral da República Federal da Alemanha, Hanns-Martin Schleyer. A repercussão mundial desse caso e também os eventos da Olimpíada de Munique de 1972 lançaram uma sombra na estabilidade alemã; não é por acaso que essa época será lembrada para sempre como uma das mais tensas da história mundial, pois o estopim para uma nova guerra poderia acontecer a qualquer momento.

“Die verlonere Ehre von Katharina Blum” foi um livro de Heinrich Böll com o qual tive contato no ensino médio. O filme homônimo retrata o cruel destino de Katharina, uma jovem que sofre as mais terríveis perseguições por conta do clima de desconfiança e histeria que dominou seu país durante as ações do grupo Baader-Meinhof. O papel da mídia tendenciosa também é colocado no centro das discussões, afinal, ao redor do mundo o jornalismo ganhava novos papéis com o New Journalism e com as denúncias dos horrores da Guerra Fria. Relembrar os eventos que marcaram a geração anterior nos ajuda a compreender o contexto no qual a ditadura militar brasileira estava inserida; aprendendo com as mudanças conquistadas (e também com os erros cometidos) pelos jovens no passado podemos refletir sobre o papel do movimento estudantil no presente.

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Uma resposta para “RAF e Guerra Fria

  1. Filumena 1 de dezembro de 2011 às 20:51

    Vic, maravilhoso! Superdetalhista, fiquei com vontade de assistir ao filme, ou de ler algo sobre o assunto. Parabéns

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