Em Júpiter, a transa é outra.


A capa do álbum Transa, de Caetano Veloso.

Ouvi You don’t know me, do Caetano, pela primeira vez, por meio de uma amiga que me indicou a música. À princípio o título me pareceu bastante pretensioso, até ingênuo de certo modo porque todas as pessoas que até hoje me disseram essa frase (seja em inglês ou em português e, okay, não foram tantas) eram bastante previsíveis ao contrário do que imaginavam. Logo de cara a música me impressionou pela levada lenta, quase uma balada, e me lembrou dos tempos do teatro e dessas músicas que tendem ao relaxamento de atores. Show me from behind the wall, cantava Caetano, quase como um pedido. À princípio nem identifiquei de que época era a música – ela me pareceu bastante atemporal, cabia em qualquer álbum do Caetano e, realmente, foi regravada diversas vezes, inclusive no recente (2005). Mais pro finalzinho da música, entretanto, uma voz feminina surge e diz: já temos um passado, meu amor, um violão guardado, aquela flor, um trechinho de Nostalgia, imortalizada pela voz de Gal Costa em Gal Total (1979). E ai matei a pau: essa música com certeza era da safra de Mora na Filosofia, aquele samba decadente do Caetano que já era meu conhecido.

Até aquela época, Caetano Veloso para mim não era um dos meus preferidos e se resumia aos destaques da Tropicália e às bossas recentes (tais como Samba de VerãoCoisa mais Linda, etc…). Mas foi procurando mais coisas que se assemelhassem à You don’t know me e Mora na Filosofia que descobri o álbum Transa (1972).

Nos idos da ditadura, Caetano se encontrava exilado em Londres e conseguiu permissão para passar alguns meses no Brasil afim de presenciar a comemoração do aniversário de casamento de seus pais. Durante a estadia, o compositor foi interpelado pelos militares que lhe propuseram que fizesse um álbum em homenagem à rodovia Transamazônica, em construção na época. A Transamazônica viria a ser um dos grandes símbolos da ineficiência, da burocracia e sobretudo da burrice da administração militar – inconsciente, inconsequente, anti-ecológica. Caetano não acatou a proposta e preferiu rumar à Londres onde, alguns meses depois, produziu Transa.

Eu poderia exaltar detalhes técnicos do disco – dizer que foi o primeiro álbum a introduzir o reagge no Brasil na belíssima Nine out of ten ou que contou com a participação de nomes ilustres como Jards Macalé e Tutti Ribeiro. Mas essas coisas, acredito eu, são detalhes para puristas que enxergam a música como uma técnica e gostam desses argumentos para inflamar discussões. Eu enxergo a música como uma arte, sobretudo. E quando engajada (não necessariamente em política), é uma das artes mais sublimes. E o álbum Transa trás esse discreto incômodo que é capaz de fazer os puristas e conservadores torcerem o nariz e ao mesmo tempo penetrar na intimidade dos libertários. Todas as canções são tão envolventes que sugerem uma moleza e uma dança que agradam e que embalam o ouvinte. As letras de Transa, mesmo assim, não se desprendem da realidade que os anos 70 permitia à sua juventude – sobretudo àquela que discordava de todo autoritarismo, seja de direita ou de esquerda. We’re not that strong my lord / you know we ain’t that strong / I hear my voice among others / in the break of day / hey brothers / say brothers / it’s a long long long way. São versos, esses, bastante emblemáticos da canção It’s a long way. Outro destaque do álbum é a versão musicada do poema Triste Bahia, de Gregório de Matos. A critica implícita é tão bela que censor nenhum foi capaz de reconhecê-la e proibir a canção de ser veiculada no Brasil.

O poeta Henrique do Valle disse, em seu Vazio na carne, “Queria viver em Júpiter, onde as almas são puras e a transa é outra”. Acredito, enfim, que esse álbum de Caetano é um dos indícios de qual é a transa de Júpiter ou de qualquer outro planeta que não esse, povoado de caretice e de muita gente babaca. Transa é uma álbum pra gente viva e ávida por vida. Já diria o próprio Caetano em Nine out of tenWalking down Portobello road to the sound of reaggea/ I’m alive.

 

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Uma resposta para “Em Júpiter, a transa é outra.

  1. Paola Villa. 5 de setembro de 2013 às 05:05

    Que texto maravilhoso! Encontrei seu artigo enquanto buscava por referências de “Vazio na Carne” e, apesar da proposta dessa postagem não vir de encontro a minha busca, valeu muito a pena parar e ler. Muitíssimo obrigada por compartilhar conosco essa sua impressão sobre o álbum do Caetano. Parabéns.

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