Entre uma pedra e uma pergunta dura de responder


ATENÇÃO! SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME, HÁ SPOILERS!

É necessário coragem para assistir ao novo filme de David Boyle “127 horas”. Não apenas para aguentar de olhos abertos as impressionantes cenas em que ele decide beber a sua urina ou cortar o próprio braço para sobreviver. Mas sim para responder a questão que permeia o filme: “Até onde você iria para manter-se vivo?”

127 horas preso a uma rocha pelo braço direito.A narrativa que se desdobra a partir das horas que se seguem ao acidente são o enredo do filme homônimo

A história verídica do alpinista americano Aron Ralston, que, enquanto escalava o canyon Blue John, em Utah, teve o braço direito esmagado por uma rocha e, preso a ela, ficou  impossibilitado de soltar-se por cinco dias. Os espectadores do filme assistem agoniados a passagem do tempo e o insucesso nas tentativas de se desprender do monolito.

Porém, o mais intrigante do filme não é descobrir se ele sobreviverá às péssimas condições, à debilidade causada pela falta de comida ou pela perda de sangue quando se perfura com um canivete cego.

O que prende o público a cadeira do cinema é a retrospectiva da vida de Ralston. Em sua mente, ele repassa por momentos marcantes de sua vida até chegar à situação em que se encontra. Solitário e isolado, chega à conclusão de que cada atitude sua até então haviam-no conduzido àquele acidente. Sua paixão por escaladas em canyons longínquos era como uma fuga do caos da cidade, das cobranças da mãe e da irmã, da mediocridade do trabalho. Era a  forma como ele mais aproveitava a vida, o que o fazia sentir-se vivo.  Antes do acidente, as  fugas e incapacidade de prender-se pareciam escolhas deliberadas, uma preferência pela distância e o isolamento.

Após 127 horas para refletir, Aron arrepende-se de não ter respondido aos telefonemas da mãe e tê-la avisado de seu paradeiro, de não ter apreciado o amor de sua ex-namorada, de não ter prestado atenção a sua irmã. Parece clichê, mas o protagonista percebe que afinal de contas prefere estar na presença de seres humanos do que aprisionado à solidão. A conclusão do filme não deixa de demonstrar um forte paralelo com outro filme, que retrata a rebeldia de um espírito livre, como a de Alex SuperTramp de Into the Wild, que procura na natureza selvagem uma fuga do “sistema”. Em seus últimos momentos de vida, sozinho, ele se lembra de sua vida e rejeita, tarde demais,a solidão.

Entretanto, a solidão não é a vilã da história. É um processo que se faz necessário para o individuo compreender a vida, colocando-a em perspectiva. Contemplando-a de certa distância enfim reavalia seus princípios e ideias. O turning point da história.

A marcante cena na qual Ralston está perto de sucumbir e enxerga uma criança sentada em um sofá é o momento em que tudo fica claro para o protagonista (e para o telespectador). A criança, que podia ser ele quando jovem, era também o seu futuro que ainda estava por vir. Um filho ou sobrinho. A sua motivação para viver. Esta foi a resposta que Aron Ralston encontrou para a indagação da obra ao final do filme. Mas para aqueles que ainda não conseguem respondê-la, a belíssima montagem do início e final do filme, com flashes de diversas atividades humanas podem, talvez, inspirar motivação para alguma resposta. Afinal, o que faz a vida valer a pena?

 

A cena final que demonstra a razão da luta pela sobrevivência de Ralston

 

O filme 127 horas (2010) foi baseado no livro biográfico de Aron Ralston chamado “Between a rock and a hard place”. É do mesmo diretor de “Trainspotting” e “Quem quer ser um milionário”e estreiou dia 18 de fevereiro nos cinemas brasileiros. James Franco interpreta de forma intensa e cativante o alpinista.

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Uma resposta para “Entre uma pedra e uma pergunta dura de responder

  1. Leonardo Fernandes 7 de março de 2011 às 20:03

    Mas então no final ele sobrevive? Que legal!

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