O incômodo do ‘Cisne Negro’


Sim, porque o filme incomoda. Não achei palavra melhor para designar a sensação de dúvida, estranhamento e identificação vivenciada ao vê-lo no cinema. Vá lá assistir para saber do que estou falando ou admita-se como insensível se você não concorda. Nada de loura angelical, nem morena tentadora, como pregou durante tanto tempo a literatura. Já era o maniqueísmo dos contos-de-fadas, o mocinho contra o vilão. E está aí o drama psicológico ‘Cisne Negro’, que estreou em 4 de fevereiro nos cinemas, para não nos deixar mentir.

No longa, a protagonista Natalie Portman encarna com genialidade o papel de uma moça ‘certinha’ que precisa encontrar sua versão ‘malvada’, por assim dizer, para realizar um grande sonho. Para tal transposição entre Natalies, o longa abusa de metáforas e imagens já desgastadas, como o branco e preto, a gêmea do mal e a do bem. A sensação de realidade experimentada talvez venha do fato de ser o balé (e a ideia de dedicação que o envolve) o plano de fundo para a criação do ‘lado B’ da personagem.

Na verdade a questão não é CRIAR essa personalidade dark, mas sim fazê-la AFLORAR. A ideia, então, é a de que todos temos dentro de nós essa dualidade que transita entre o prudente e o desregrado, o ímpeto e o sensato. Que a razão luta com a emoção todo mundo já sabia, mas o filme de Darren Aronofsky parece sugerir que elas coexistem e que ora uma vence, ora outra, ora AS DUAS. E isso incomoda. Pelo menos a mim.

Mas tanto é verdade que ninguém é 100% estável que nas redes sociais existem diversos perfis com os nomes mesclando algo comumente ‘bom’ com alguma palavra de conotação estranha. Exemplos: ‘Princesinha Dark’, ‘Pequena Diabólica’ e afins. Em breve até o Google com sua ‘pioneirisse’ já estará providenciando uma versão mais dark para os seus aplicativos, para aqueles dias em que o ‘lado B’ dos seus usuários aflorar. Quem sabe ao invés de ‘talvez agora não seja uma boa hora’ aparecerá no gtalk a seguinte mensagem quando se insistir em falar com alguém que tenha ocupado no  status:  ‘parece que só você não está fazendo algo importante agora’.  Mas aí já é chute meu.

Nada é tão simples quanto parece, as coisas (e aparentemente as pessoas) são contraditórias, a gente já sabia. Mas a vida de Natalie Portman teria sido muito mais fácil nos últimos meses se ela tivesse consultado celebridades especialistas em destruir suas imagens de santas e/ou menininhas, como Miley Cyrus, Lindsay Lohan, Britney Spears e a lista é longa… Só não a Sandy, por favor, que essa está tentando parecer ‘bad’ até hoje… E assim o mundo vai se recheando de ‘personagens esféricas’, a la Machado de Assis. Talvez até a adolescência possa ser melhor compreendida nesses moldes… Tomara né?

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2 Respostas para “O incômodo do ‘Cisne Negro’

  1. Livro Seo Otimização 24 de fevereiro de 2011 às 12:15

    Procuro sobre este assunto há dias, até que enfim achei um bom texto

  2. M. Regina 19 de fevereiro de 2011 às 15:12

    Vi “Cisne Negro” e saí com a sensação de ter andado numa corda bamba. O drama de Nina realmente incomoda, como você diz, e incomoda porque nos fala diretamente. A atuação de Natalie Portman foi estupenda.

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